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Estamos a nada de ser muito: construir o movimento estudantil | Ana Rosa, Joana Piçarra e João Nuno

As Associações de Estudantes (AE) têm o potencial de condicionar ou impulsionar o movimento estudantil. Contudo, construir um movimento estudantil sustentado passa por conseguir quebrar as barreiras dos órgãos de representação institucional. Cada vez mais se revela necessário criar caminhos alternativos que despoletem práticas de resistência dinâmicas, autónomas e que deixem raízes.

As ideias que aqui desenvolveremos surgem, em grande parte, da nossa experiência ao longo do último ano letivo, no qual fizemos parte da direção da AE da Faculdade Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Este contexto levou-nos a refletir sobre a importância ou irrelevância das AE, o seu papel no movimento estudantil e que possíveis caminhos podem ser tomados para impulsionar os movimentos.

Sentimo-nos motivadxs num projeto de assalto aos órgãos de representação, como é o caso de uma AE, porque acreditámos que significaria um alargamento e endurecimento dos pequenos movimentos e lutas que mantínhamos na faculdade, na esperança de os tornar grandes. Mais recursos, maior projeção de voz, mais pessoas envolvidas num movimento por um ensino democrático, inclusivo e gratuito: esta era a expectativa que nos movia em rutura face à estagnação das habituais AE e federações académicas.

Após uma vitória tão desejada, em pouco tempo compreendemos como as nossas esperanças advinham de uma ingenuidade de quem se iludia na possibilidade de mudança, tanto dos órgãos de representação institucional como através destes.

Antes de mais, sabemos o quão difícil é contrariar a força das dinâmicas de disputa de poder em qualquer grupo, mesmo quando o seu objetivo formal seja a horizontalidade. E, por isso, consideramos que se revela contraproducente falarmos de movimento estudantil alargado e horizontal quando, na verdade, ocupamos um cargo de direção, seja este formal ou simbólico, que gera uma barreira hierárquica: este é um primeiro ponto na reificação de relações de poder, ainda que teoricamente indesejadas.

As relações de poder, contudo, vão muito para além destas expressões formais entre dirigentes e dirigidxs e essas tendências reproduzem-se também dentro do próprio grupo dirigente. As palavras ‘horizontalidade’ e ‘coletivo’ são de uma força imensa, mas que não chegam por si só. A sua materialização implica esforço e autocrítica, tanto individual como do coletivo. Garantir a democracia e equidade num grupo é um trabalho em construção permanente. Reconhecemos, neste sentido, algumas dinâmicas que, tendendo a pôr em causa a desejada democracia e horizontalidade, merecem a nossa atenção.

Em primeiro lugar, é impossível pensar a horizontalidade quando os movimentos são encarados como ferramentas de auto-promoção, numa lógica que diferencia quem se destaca mais e quem é melhor ativista. O reconhecimento e a diferenciação dx ativista (motivados individual ou coletivamente), gera uma série de benefícios próprios seja internamente — como a afirmação de lideranças informais que minam a horizontalidade; seja externamente — pela instrumentalização do coletivo para alcançar reconhecimento externo e projeção social.

Por outro lado, na construção de um coletivo horizontal e equitativo, a amizade não pode atropelar a discussão política. Um grupo que privilegie o círculo de amigxs tende a ser mais excludente que inclusivo, na medida em que para que a voz de um membro do grupo seja efetivamente considerada na discussão política, essa pessoa terá que fazer parte do círculo de amigxs, mais do que do grupo de ativismo em questão. Este mesmo círculo, finalmente, leva à exclusão de novxs membrxs que pretendam fazer ativismo independentemente das redes de amizade.

Outro ponto relevante diz respeito ao recurso a ferramentas virtuais e online. Podendo ser úteis e proficientes para a organização do coletivo, requerem ainda assim uma utilização com critérios definidos, sob o risco de atropelamentos anti-democráticos. A possibilidade de bloqueio de discussão ou mesmo de substituição de reuniões presenciais, assim como o acentuar de reações negativas e cisões proporcionadas no contexto dos recursos virtuais são ameaças à longevidade e democraticidade do grupo. Quando uma tomada de decisão em reunião presencial é desafiada através de instrumentos online, as adversidades à democracia interna acentuam-se, dado que uma discussão virtual está sujeita a uma disponibilidade desigual e uma discussão menos alargada.

A divisão de trabalho é também uma questão chave a ser considerada num coletivo. Por um lado, porque num coletivo horizontal pressupõe-se que o trabalho seja equitativamente distribuído, de forma a não sobrecarregar nenhum membro. Por outro lado, porque essa sobrecarga pode criar uma elite com acesso privilegiado a informação, dados e redes de contacto, proporcionando uma cíclica afirmação de poder dessa elite tanto interna como externamente. Esta elite forma-se e reforça-se nos grupos formalmente horizontais que, ao não distribuir o acesso a estas redes (intencionalmente ou não), recorre aos seus conhecimentos e experiências para assegurar preponderância na formação de agendas políticas.

Por fim, consideramos que a interseccionalidade exige mais concretização que uma referência panfletária. Hierarquizar lutas propicia exclusão, discriminação e silenciamento nos coletivos. A valorização equitativa das várias lutas implica, por um lado, uma materialização que vá além da agenda eleitoral, mas também que sejam todas travadas ao mesmo tempo — não só na sua projeção para o exterior, mas também dentro do próprio coletivo. A negação ou secundarização de determinadas opressões e respetivos combates é um fator que põe fortemente em causa a democracia de um coletivo.

Os fatores que apontámos anteriormente têm influência nos movimentos, mas quando falamos de um órgão de representação como uma Associação de Estudantes mais poderes e ameaças devem ser considerados. Em primeiro lugar, porque o próprio órgão parece sustentar em si mesmo uma narrativa de responsabilidade e reconhecimento acrescidos que modera o seu discurso e a sua ação política, pressionados pelo status quo. Por outro lado, as relações privilegiadas com direções de faculdade e outras direções de AE e órgãos de representação acentuam as dinâmicas institucionalistas. Estas dinâmicas apresentam um risco de fechamento porque, quotidianamente, tendem a estabelecer-se maiores laços entre os diferentes órgãos de representação; e a relação com quem é supostamente representadx é secundarizada. Em suma, institucionalismo mata o movimento.

O movimento estudantil, apesar de todas as adversidades, tem uma força e uma capacidade transformadora que podemos e devemos continuar a experimentar e reinventar. Certamente não existem soluções imediatas nem respostas fáceis sobre o que se pode fazer para reconstruir e fortalecer o movimento estudantil. Os caminhos que percorremos e soluções que fomos experimentando, diferentes ao longo do tempo, levaram-nos a refletir algumas possibilidades e propostas.

  1. Na auto-gestão toda a gente põe a mão. Queremos combater o institucionalismo, o que não significa querer acabar com todas as instituições — como é o caso das Reuniões Gerais de Alunxs (RGA) ou Assembleias Gerais de Estudantes (AGE). E porque nos parece determinante alargar o movimento e a participação, olhamos para as RGA/AGE como um momento relevante na discussão e organização estudantil. Assembleias de estudantes autogeridas, de mesa rotativa e não dependente de eleições, de regularidade frequente (semanalmente, por exemplo) permitem uma organização horizontal e alargada, que distribua entre todxs informação, ferramentas e recursos que impulsionem as várias lutas no movimento estudantil.
  2. Em cada esquina uma luta. Outras instituições, contudo, parecem-nos perder a sua relevância, como é o caso das Direções das Associações de Estudantes. Para combater a centralização do poder estudantil e alargar movimentos nas lutas todas, surge como alternativa priorizar coletivos e fomentá-los. A liberdade de associação (em moldes democráticos) e reivindicação, assim como a organização em torno de várias lutas (contra o patriarcado, contra o racismo, contra o capital, etc..) potencia a emancipação estudantil. O movimento estudantil, amplamente organizado nas assembleias, teria assim mais e novos espaços para as várias singularidades e lutas.
  3. Menos cargos, mais movimento. As candidaturas às DAE proporcionam momentos eleitorais que podem atrair a comunidade estudantil e ampliar a participação. Estes contextos, que podem contribuir para o alargar do movimento, devem ser reaproveitados precisamente para essa finalidade. Uma candidatura cujo objetivo seja alargar o movimento deve rejeitar os cargos e a tomada de posse. Importa criar candidaturas que reinventem as possibilidades do movimento estudantil — que o alarguem e não o hierarquizem. As AE podem ser ferramentas úteis para um movimento estudantil horizontal; as suas direções não tanto.
  4. Burocracia para quem a cria. A transferência de responsabilidades burocráticas e/ou de gestão das direções de faculdade para as AE (equipas de desporto, serviço de papelaria, etc..) tem-se refletido num progressivo entupimento no funcionamento das AE que é necessário recusar. Para além de se desresponsabilizarem das suas funções, as direções das faculdades não podem converter os seus encargos em trabalho não remunerado para xs estudantes. Por outro lado, estas obrigações consomem a disponibilidade (de tempo, mental, física, etc.) dxs estudantes, cada vez mais reduzida especialmente depois do processo de Bolonha. Importa recusarmos a burocracia que nos foi despejada e que nos consome para ganharmos mais disponibilidade para a organização das lutas do movimento estudantil.
  5. Aqui decide a gente. É de extrema importância que cada assembleia tenha autonomia para decidir que tipo de ação política deseja. O potencial emancipatório corre o risco de se perder se o movimento estudantil se transformar numa correia de transmissão de interesses externos à comunidade estudantil. Cada contexto tem produção de subjetividades específicas; não vemos o movimento estudantil como uno e homogéneo, mas sim como expressão plural e diversa das subjetividades. Em cada faculdade decide quem lá estuda e trabalha. Autonomia não significa, no entanto, isolacionismo: partir de todas estas particularidades e, ao mesmo tempo, encontrar pontos comuns que possam aliar os vários movimentos pode ser uma ferramenta fundamental para lhes dar força.
    6. Mil rios de multidão. Consideramos a cooperação entre os movimentos um conceito chave. As redes de contactos e a discussão regular entre as várias organizações abrem espaço para ações conjuntas que potenciem o movimento a grande escala (seja entre cidades, a nível nacional ou internacional). Um exemplo que reconhecemos, no contexto da nossa experiência, é a relevância de estabelecer ligações entre os movimentos de Lisboa e Coimbra (com especial ênfase nas repúblicas de estudantes), sobre o combate que têm partilhado contra o regime fundacional e contra a praxe. Outro exemplo pode ser a aliança entre estudantes e trabalhadorxs (funcionárixs, investigadorxs, professorxs). As transformações profundas no ensino que procuramos requerem a mobilização de toda a comunidade escolar, seja através de assembleias ou ações conjuntas. São cooperações deste tipo que podem servir de rastilho para dar novas dimensões às lutas existentes.

Procuramos com estas propostas dar resposta à urgência de fazer crescer e dinamizar o movimento estudantil. Por um lado, combatendo o institucionalismo e o eleitoralismo que desarmam o movimento e, por outro, reconstruindo-o com base na autonomia, diversidade, horizontalidade, redes de cooperação e respostas coletivas. Mas não acreditamos em dogmas, nem doutrinações, nem vanguardas — e nós não somos imunes à crítica. Acreditamos que as nossas próprias ideias estão condenadas a ser desafiadas pelo dia-a-dia e pelas diferentes condições de cada ativista e coletivo estudantil.

Além disso, não pensamos que exista uma travessia linear que nos permita chegar a uma formulação perfeita do movimento. Será sempre uma obra inacabada. Mesmo o movimento mais radical, mais revolucionário e mais insurrecionário não corresponde à idealização dos “espaços seguros” — uma narrativa que se fecha em si mesma, mas que não impede opressões e que silencia as suas denúncias. O combate aos fascismos, opressões e discriminações é permanente, travado em coletivo, mas também contra nós próprixs. Esta obra inacabada durará tanto tempo quanto a própria vida.
Mas o desespero e o desencanto não são as respostas que procuramos. Acreditamos na capacidade transformadora da organização horizontal e coletiva do movimento estudantil. Sabemos que construir a educação como a imaginamos é possível. Um ensino crítico, democrático, gratuito, inclusivo, autónomo e horizontal é um passo relevante no repensar da sociedade que queremos construir. Falta, então, organizarmo-nos numa rede tão plural quanto todas as lutas que temos por vencer.

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