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A França anti-Macron: “Vai rebentar” | Manuel Afonso

Esta é a terceira parte da reportagem no terreno sobre os ataques neoliberais do presidente francês Emmanuel Macron à classe trabalhadora francesa com as reformas da lei do trabalho. Aqui podes ler a primeira e segunda partes.

O movimento social francês é dos mais ricos e ativos do mundo. A classe trabalhadora e as organizações sindicais são-lhe uma parte constitutiva fundamental, para além de serem herdeiras deuma tradição com 200 anos de luta, uma tradição que, ainda hoje, mantém os métodos mais radicais de ação coletiva. O movimento estudantil tem um peso histórico: há quem diga que as classes dominantes do país o temem tanto ou mais que ao movimento operário, com quem, de resto, tem a tradição de confluir. O Maio de 68 não passou em vão. Como resultado disso, a esquerda revolucionária, ainda que minoritária, tem um peso relativamente superior ao observado nos restantes grandes países imperialistas. Apesar de todas as derrotas, recuos e traições, um elo histórico permanece vivo. A juventude precária francesa é filha de 68 e neta de 1936 e corre-lhe nas veias o sangue dos communards e dos sans collotes, assim como as gerações afro-descendentes, que compõem grande parte da classe trabalhadora, são herdeiras da guerra de libertação da Argélia e de tantas ex-colónias francesas, palcos da luta revolucionária desde a revolução negra do Haiti. Todas as cores da classe trabalhadora saem, periodicamente, à rua e para pararem o país.

Não é coisa do passado, já no século XXI tem sido assim. Em 2006, a juventude precária, universitária e secundária rebelou-se contra o “Contrato Primeiro Emprego”, travando parcialmente esse projeto de precarização. Em 2010, um poderoso movimento de greves recondutíveis — em que a cada dia de greve os operários se reuniam em assembleia para decidir se a continuavam no dia seguinte — paralisou o país, atingindo centros nevrálgicos como as refinarias e as centrais nucleares. No ano passado, contra a famigerada Lei El-Khomri, a grande contra-reforma laboral de François Hollande, o fenómeno repetiu-se, aliando as greves operárias aos ecos do movimento das acampadas espanholas, dando lugar ao movimento “Nuit Debuit”. Apesar da lei ter sido aprovada, o PS francês imolou-se no processo e o terramoto social das ruas redundou no terramoto político das eleições presidenciais de 2017. Os de baixo não aceitam ser governados como antes e os de cima não conseguem governar como até aqui, como já dizia Lenine há mais de cem anos atrás. Mas, por enquanto, o capital francês mantém uma margem de manobra política e económicaPor enquanto.

A cada nova vaga de mobilizações, as greves prolongadas e as ocupações de fábricas e de escolas combinavam-se com confrontos com a polícia. Se é certo que há muito que o poder não treme perante estas ondas de choque, a verdade é que a poderosa classe capitalista francesa está desesperada. Anos de resistência impediram-na de aplicar a austeridade à mesma velocidade que os seus parceiros-concorrentes europeus. Macron promete ser o seu salvador-reformador, de acabar com o mito da “França irreformável”. Um Passos Coelho gaulês, diriam alguns, assente sobre um dos maiores sistemas financeiros do mundo e ao comando da maior potência militareuropeia. A agenda do novo presidente faz com que os seus antecessores pareçam moderados. A contra-reforma laboral que está em marcha — a Travail XXL — facilita os despedimentos e arrasa com a contratação coletiva (onde é que já vimos isto?). Macron quer impor a reforma por decreto até outubro, sem a passar pelo parlamento, tal como Hollande fez no passado. O corte dos apoios aos universitários já está em marcha e depois segue-se o ataque à segurança social. Isto tudo nos primeiros seis meses de governo. Uma guerra social de enormes dimensões está a iniciar-se. A mobilização dos de baixo terá de se elevar para um outro patamar, um superior ao das batalhas anteriores se se quer travar o ataque. Porém, a ofensiva do Presidente-banqueiro é mais veloz que a tomada de consciência dos trabalhadores. Enquanto muitos ainda não se aperceberam da hecatombe que se anúncia, as lideranças sindicais e políticas hesitam e degladeiam-se. Os dados estão lançados.

Dia 12 de Setembro foi o primeiro passo da resistência. Terão saído à rua, por todo o país, cerca de 400 mil pessoas, números semelhantes aos das primeiras mobilizações da onda de lutas de 2016. O movimento é impulsionado pela CGT e SUD-Solidaires. A Force Ovriére, outra das centrais, ao contrário de 2016, não está na luta. Mas o mais interessante é que ramos inteiros desta centralapelaram ao combate, mesmo que contraas ordens da direção nacional. As Univeridades ainda estavam fechadas, pelo que o movimento estudantil não compareceu ainda em força.Mas o primeiro aviso foi dado…

Nós chegámos a Paris no dia seguinte, o 13 de setembro. Antes de partir marchámos com os sindicatos, na convocatória do dia 21. Ninguém sabia ao certo o que esperar: iria o movimento refluir ou dar um salto em frente? A divisão face a Melenchon, que apesar de participar nas mobilizações sindicais, chamava o povo a ir à sua manifestação no sábado seguinte, esvaziando assim o confronto grevista, iria confundir o movimento? Com as universidades já abertas, iria a juventude inundar as ruas?

A manifestação começava ao início de tarde em Montparnasse, perto das galerias Lafayette e da Torre de Montparnasse, uma espécie de World Trade Center parisiense. O ambiente burguês e chique do bairro, adornado pelo aparato provocatório da política de choque, contrastava com a animação que se começava a fazer sentir no local de onde partiria a manifestação. O sol brilhava, após vários dias de chuva. Paris oferecia uma morna despedida do Verão aos milhares de manifestantes que já estavam a chegar. As bancas dos vários partidos, com bandeiras, faixas, propaganda e música, rodeavam o ponto de concentração. Um mar de bandeiras, autocolantes, jornais e panfletos passava de mão em mão. Eram corretamente entendidas como um sinal de unidade e não de divisão. Cada organização de esquerda parecia querer dizer: “estamos presentes!”. A eles se juntava o bloco LGBT, as Feministas Revolucionárias, os autonomistas e anarquistas — estes eram os únicos que só pareciam tolerar as suas próprias bandeiras, e não as dos outros, chegando a envolver-se numa pequena escaramuça. Este último bloco, de anarquistas e autonomistas, tentou encabeçar a manifestação. À primeira vista pareciam imponentes: os capuzes negros e as máscaras anunciavam a vontade de fazer frente à polícia. Mas empalideciam face à verdadeira cabeça da manifestação sindical, em que operários de capacetes e máscaras, eles e elas escolhidos a dedo pelo seu aspeto musculado, prometiam menos provocação mas mais resistência.

Após a frente ameaçadora da manifestação, vinha o mais lindo cortejo de todas as cores. Trabalhadoras da saúde, ferroviários, operários e operárias da Renault, funcionários da biblioteca nacional com uma grande faixa a anunciar a greve, trabalhadores dos correios, algumas centenas de estudantes universitários e população dispersa uniam-se num cortejo que se foi alongando em direção a Porte D’Italie, onde termina Paris e começam os subúrbios proletários. As bandeiras e balões da CGT e do SUD-Solidaires preponderavam, mas as da FO também marcavam presença. A maior animação e combatividade provinha dos blocos do SUD-Saúde e dos ferroviários do SUD-Rail, que no meio de petardos e very-lights entoavam: “Ça va peté!” — “a coisa vai rebentar”. E rebentava, mesmo, por enquanto sob a forma de petardo, mas prometendo algo maior mais adiante. “Distribuam o trabalho, distribuam a riqueza ou a coisa vai rebentar”, cantavam os homens e mulheres do SUD-Rail ao jeito das claques de futebol. Se os primeiros versos eram entoados de forma melódica, o ritmo e o tom iam subindo ao som de um bombo batido de forma pouco musical, mas eficaz. O espírito era animado, quase de festa, mas o tom era de ameaça. Os executivos engravatados e a alta classe média de Montparnasse, apanhados de surpresa nos Cafés, arregalavam os olhos. E com razão. O aviso estava dado, não para eles, mas para os seus chefes e ao seu chefe-mor, Macron: os batalhões mais avançados da classe trabalhadora já estavam na rua e preparam o rastilho para trazer atrás de si o resto do povo trabalhador. “Ça va peté — a coisa vai rebentar”.

Claro que os caminhos da luta de classes são complexos, embora não insondáveis. Múltiplas causas e efeitos podem combinar-se para acelerar ou retardar explosões sociais. Aos trabalhadores não basta sentir nas costas o chicote do capital para logo iniciarem uma luta à altura. Sobretudo uma luta dura e prolongada, como será necessária contra o ataque dirigido por Macron. A divisão dos explorados é provavelmente o maior perigo que ameaça o movimento. Não apenas a divisão artificialmente fabricada pelas suas lideranças, como a que resulta do veneno da xenófobia, injetado constantemente de forma disfarçada pelos meios de comunicação e de forma aberta pela extrema-direita. Por isso, a vermos na manifestação de dia 21 trabalhadores negros e brancos lado-a-lado, mulheres liderando homens, todas as gerações presentes e os movimentos LGBT e feministas também, ainda que em pequena escala, enchemo-nos de esperança nessa última tarde de verão. Mas o inverno está a chegar. O duro inverno a que o capital quer condenar aquela que é provavelmente a classe trabalhadora de maior tradição do continente, seria um retrocesso para os trabalhadores de todo o mundo. Mas as batalhas já começaram e, do nosso lado, dos trabalhadores, há também indícios animadores. Para o final de Setembro está marcada uma greve indefinida dos camionistas franceses e, enquanto escrevo, vejo que Melénchon juntou 150 mil na Bastilha contra o “Golpe de Estado Social” de Macron.

Para onde vai a França? Hoje é difícil dizer, mas esse é precisamente o lado bom da História. Porque a luta de classes não tem vencedores definidos à partida e em lado nenhum está escrito que tenha que ser sempre o nosso lado a perder. Mais cedo ou mais tarde, “ça va peté”.

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