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A França anti-Macron: A festa do L’Humanité | Manuel Afonso

Esta é a segunda parte de uma reportagem no terreno sobre os ataques neoliberais do presidente francês Emmanuel Macron à classe trabalhadora francesa com as reformas da lei do trabalho. Podes ler a primeira parte aqui.

O L’Humanité nasceu em 1904, como Jornal do SFIO — a Secção Francesa da Internacional Operária — nome do Partido Socialista Francês (PSF) no tempo em que a IIª Internacional unia as fileiras do movimento operário europeu. Foi fundado por Jean Jaurés, o agitador e propagandista socialista após a revolução de Outubro, quando a IIª Internacional se dividiu entre aqueles que queriam reproduzir a estratégia de Lenine nos seus países e aqueles que a condenavam. França foi o único país que viu a maioria do partido socialista juntar-se à internacional de Vladimir Lenine e Leon Trotsky, a recém-criada Comintern ou III Internacional. Assim, o L’Humanité, passou a ser o órgão oficial do PC Francês, sofrendo com os altos e baixos e as aventuras políticas de um partido, que, com a degeneração do regime soviético, caiu ele também nas mãos da peste estalinista que envenenou o comunismo internacional. Não obstante, durante a Segunda Grande Guerra, o L’Humanité foi o órgão centralizador da resistência francesa, o que lhe granjeou um prestígio que ainda persiste nos dias que correm.Com a conversão do PCF ao “eurocomunismo”, o jornal desvinculou-se oficialmente do partido, ainda que não no seu conteúdo político. Chegou mesmo a abrir-se ao capital privado e sobrevive hoje do financiamento dado pelo Estado francês.

De certa forma, a festa do L’Humanité passou pelo mesmo processo: a partir dos anos 80 começou a despolitizar-se e a abrir-se a um leque de artistas e a um público mais amplo que extravasa a esquerda, ao mesmo tempo que começava a perder peso em França. Não obstante, continua a ser o maior encontro da esquerda francesa. Pierre Laurent, Secretário-Geral do Partido Comunista Francês chamou-lhe o “maior encontro anti-macron” do país. E a verdade é que se as cerca de 600 mil pessoas esperadas na festa saíssem à rua na semana seguinte, a situação em França poderia começar a mudar. Era ainda uma incógnita se assim seria.

Festa do L’Humanité deste ano

Estava lá a associação dos “Amigos da Comuna de Paris”, centenas de organizações regionais do PCF, a CGT, assim como os partidos-irmãos de inúmeros países, ainda que não nos tenhamos cruzado nem com representações da China ou da Coreia do Norte. Corredores sem fim de bancas, barracas e stands expunham desde a Quiche Lorraine a maravilhosos queijos brie e degustações de champanhe tradicional. Mas também as cores, sabores e músicas das Antilhas, da Indonésia e de África se cruzavam nos corredores enlameados pela chuva, constituindo de facto o melhor da festa. Dezenas de milhares de pessoas deliciavam-se. Apesar da chuva ter transformado parte do recinto em lama, famílias, jovens e veteranos afluíam e a animação ia aumentando. Praticamente todas barracas das diversas organizações promoviam debates e concertos próprios. Os subúrbios de Paris pareciam ser de onde provinham as delegações mais fortes. A maior surpresa, para quem já frequentou a festa equivalente em Portugal, era ver os stands das organizações concorrentes do PCF presentes. Desde os trotskistas da Lutte Ouvriére, ao Nouveau Parti Anticapitaliste, passando pelo Ensemble — uma nova organização que utiliza um símbolo igual ao do Bloco de Esquerda — estavam todas presentes. Assim como uma constelação de pequenos grupos estalinistas que se proclamavam em extensos manifestos como a verdadeira organização dos comunistas franceses, debaixo das barbas complacentes do PCF.

Como trotskistas não pudemos deixar de visitar as bancas da nossa família política, ainda que no caso fossem “primos afastados”. A Lutte Ouvriére tinha um stand rico em propaganda, onde se podiam encontrar as traduções dos escritos de Trotsky e Lenine, assim como as elaborações do próprio grupo, que tem o bom hábito de editar pequenos livros após os principais conflitos operários, com os seus balanços e análises. Porém, o ambiente era o de uma organização internista, que parece não encontrar, entre o sindicalismo quotidiano e a propaganda socialista, o caminho para uma política anti-capitalista que possa hoje disputar sectores da juventude e da classe trabalhadora. Ao lado, o stand do NPA era o reverso da medalha: aquando da visita de Philippe Poutou, candidato operário que o partido lançou nas últimas eleições presidenciais francesas, dezenas de jovens e trabalhadores atropelavam-se para tirar uma foto com o metalúrgico que nos debates televisivos calou Marine Le Pen e François Fillon.

Para o final da noite estava anunciada uma festa sob o mote “Marx, Engels, Lenine e Beyoncé”. A coisa prometia, até porque, neste stand era o bar, e não a banca de propaganda, que ocupava o lugar central. Ao voltarmos para casa, no final do concerto de Iggy Pop, que juntou centenas de milhares no palco principal, pudemos ver o stand do NPA em ebulição, certamente inspirada mais pela cantora afro-americana que pelas teorias de Marx ou Lenine.

Concerto de Iggy Pop na Festa do L’Humanité

Alain Krivine, veterano trotskista do Maio 68, o já referido Poutou e as caras da LO, Nathalie Artaud e Arlette Laguiller, estiveram presentes na festa, o que já de si parece surpreendente, dado serem as principais figuras do trotskismo francês. Lembremo-nos que a história do “Comunismo” oficial contra o trotskismo foi escrita a sangue: Leon Sedov, filho de Trotsky e seu principal colaborador, foi morto em Paris nos anos 30, vítima de um complot organizado por Estaline e PCF. Mas também outros sectores da esquerda marcavam presença na Festa: Benoit Hamon, que foi o candidato do PS nas últimas eleições — na verdade porta-voz da esquerda do PS — falou na festa, assim como Philippe Martinez, secretário-geral da CGT. Ainda assim, a mobilização e a convocação para as ruas não era, de forma alguma, visível. Era preciso procurar para encontrar apelos à mobilização que ocorreria poucos dias depois. Mas a unidade da esquerda que se desenhava parecia ser um bom augúrio. A um observador desatento poderia parecer que toda a esquerda estava francesa estava presente. Toda? Não! Também aqui um irredutível gaulês fez sentir a sua ausência, no caso Jean-Luc Melenchon e a sua France Insumisse.

Manifestação de 12 de Setembro contra as políticas de Macron. Paris, França

Por estes dias, uma das principais notícias que percorria os jornais francesas e que era tema de discussão bem para lá dos círculos da esquerda, era a rutura de relações entre Melenchon e o PCF. Cirurgicamente, poucos dias antes da festa, o jornal Canard Enchainé publicara um duro SMS de Melenchon para o secretário-geral do PCF: “Vocês são a morte e o nada”, fazendo eco da discórdia que vem das eleições legislativas, em que a France Insumisse rejeitou a presença do PCF nas suas listas de candidatos a deputados. Aparentemente, o PCF, inconformado, utilizou nos seus materiais eleitorais não só as cores da formação de Melenchon, como também imagens do mesmo, o que lhe valeu a acusação de querer “semear a confusão entre os eleitores” por parte do candidato que, nas eleições presidenciais, obteve mais de 20% dos votos e que quase afastou Le Pen da segunda volta. Apesar de participar nas manifestações de dia 12 contra Macron, encabeçadas pela CGT e o SUD-Solidaires, Melenchon manteve a convocatória de uma manifestação apenas do seu partido para dia 23. Como resposta, as duas centrais marcaram uma nova jornada de luta para dois dias antes. Lá como cá, o espectro da divisão à esquerda ensombra a classe trabalhadora e as suas lutas.

Poderiam as ruas unir o que as lideranças dividiram? A contagem decrescente para as mobilizações de dia 21 e 23 continuava e na Festa do L’Humanité não se pôde respirar um clima de luta que anunciasse uma onda de mobilizações com a dimensão necessária para travar os ataques contra o Trabalho do governo. Mas a rua seria o tira-teimas.

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