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A França anti-Macron: Pensar a Emancipação | Manuel Afonso

Manuel Afonso


Esta é a primeira parte de uma reportagem no terreno sobre os ataques neoliberais do presidente francês Emmanuel Macron à classe trabalhadora francesa com as reformas da lei do trabalho.

Paris é um dos principais destinos de férias na Europa. Para quem tem familiares entre os milhares de portugueses que vivem em Paris, dez dias — inacessíveis a preço de turista — tornam-se um passeio possível. Foi o meu caso e da minha companheira. Chegámos a 13 de Setembro, um dia após as primeiras grandes mobilizações contra o governo do presidente Emmanuel Macron. Será que, após a onda de greves de 2016 e perante um novo governo ultra-liberal, se prepara uma nova explosão social em França? Aos destinos turísticos tradicionais acrescentamos um pequeno périplo político para tentar dar uma resposta, ainda que insuficiente, à questão: para onde vai a França?

“Pardon, je ne parle pas français”, disse ao homem que me antecedia na fila para a máquina de café. Como em Portugal, as filas em França não são tão definidas como podiam ser e uma distração pode ser facilmente confundida com ma-fé. “De onde é?”, perguntou o senhor, baixo, velho e enrugado, dono de uma barba rebelde e uma careca reluzente, curtidas por muitos anos de militância, presumi eu. Assim que disse que vinha de Portugal, os olhos do meu interlocutor arregalaram-se: “ah, em Portugal estamos no poder!”. Assumo que, apesar de estar na Casa do Trabalho de St.Denis, hegemonizada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) a principal central sindical do país e, por essa via, pelo Partido Comunista Francês (PCF), não entendi. “La Gauche!” exclamou, “a esquerda não está no poder em Portugal?”. Fiquei sem perceber se as ilusões eram as de um velho comunista auto-iludido ou se o movimento por terras francesas cai no erro de tomar como exemplo a nossa geringonça. Como se não tivessem já passado por isso com Miterrand em 1981, com a Frente Popular 1936 equando Louis Blanc foi o primeiro socialista da história a integrar um gabinete governamental capitalista, em 1848. Ainda tentei explicar que, ao lado desses exemplos históricos, a nossa geringonça é uma pálida cópia, e que as leis de Macron, destruidoras do emprego e dos direitos laborais, contra a qual os trabalhadores franceses já se começaram a mobilizar, vigoram sob o reinado da “esquerda no poder”, ainda que tenham sido aplicadas pela direita. Mas quem sou eu para quebrar as ilusões de um velho militante, cristalizadas por décadas de lutas e desilusões?

As “Bourse du travail” — ao que nós chamaríamos “Casas de Trabalho –existem em todas as cidades francesas e são centros apoiados pelo Estado, cedidos às centrais sindicais para desenvolverem as suas atividades, sejam sindicais, de formação, cultural, entre outras. Apesar do governo Macron estar a avançar com cortes neste terreno, continua a ser um cenário impensável no nosso país. E o que nos trazia à Bourse du Travail de St.Denis, um dos subúrbios mais marginalizados de Paris? “Pensar a Emancipação”. Pensé L’Emancipation é um fórum que junta académicos e ativistas de várias tendências para debater e refletir sobre os movimentos sociais, o seu programa e as diversas questões políticas e teóricas que, hoje, afogam a esquerda em crises existenciais por todo o mundo.

O tema do dia era “Feminismo e Revolução”. Durante a manhã e tarde, realizaram-se debates cuja nossa condição de turistas não nos permitiu aproveitar. Mas, ao fim do dia, viemos a St. Denis participar no plenário final, atraídos pelo nome sonante de Sílvia Fredirici, filósofa feminista e marxista da geração de 70, que se juntava ao debate por vídeo-conferência, diretamente de Itália.

Cartaz do debate “Feminismo e Revolução”

No nosso país o movimento feminista não atingiu ainda o grau de maturidade que parece ter atingido em França. Os direitos das mulheres estão, pelo que vimos, no centro do programa dos principais partidos de esquerda — pelo menos Novo Partido Anticapitalista (NPA) e PCF — e das centrais sindicais mais combativas, como a CGT ou o SUD-Solidaires. Nada que se compare com os avanços tímidos da esquerda portuguesa nesse tema. Claro que quando falamos com militantes feministas da esquerda, estas queixavam-se do atraso do movimento, da sua fragmentação e despolitização. Mas tudo é relativo: o debate a que assistimos só podia ser reflexo de um movimento mais amplo e maduro do que aquele que existe por terras lusas.

A força, a maturidade — relativa, claro — e a dimensão do movimento de mulheres expressava-se no plenário. Estavam cerca de 400 pessoas na sala, as cadeiras não chegavam para todos. A maioria eram jovens, talvez estudantes ou jovens trabalhadores. Diria que metade seriam mulheres. As peles dos participantes exibiam todas as cores, não fosse St.Denis uma das zonas mais multiculturais de Paris, uma zona periférica para onde foram empurrados negros, muçulmanos, mas também portugueses.

O debate foi vivo, polémico e até duro. Mas sempre respeitoso. Além da Sílvia Fredirici, presente por vídeo-conferência falaram a Morgane Merteuil, dirigente de uma organização de trabalhadoras do sexo — sendo ela mesma trabalhadora do sexo. Ao contrário do que se poderia esperar, não se focou na rica e complexa polémica que envolve o trabalho sexual — ou a prostituição. Morgane, numa intervenção lúcida e estruturada, onde não faltou determinação, defendeu, contra o feminismo institucional e contra as tendências neo-idealistas e metafísicas a que muitas vezes chamamos “pós-modernas”, um feminismo intersecionalista. Ou seja, um feminismo materialista, que absorve as lutas de género, raça e classe, mas também dos povos indígenas ou contra a destruição ambiental. Sam Bourcier, socióloga e activista queer que se apresenta como “bébé dos pós-estruturalismo francês, defendeu, numa intervenção bem humorada e tranquila, aquilo a que chamou o “transfemimismo”, que nega o conceito de género, sexo, raça e tudo o resto, apegando-se a uma visão “foucaultliana” de biopoder que fica, pareceu-me, sem qualquer agenda prática para além da propaganda das suas próprias ideias. Talvez por isso mesmo seja uma corrente de pensamento com muito mais peso na academia do que no movimento, não merecendo a atenção dos participantes — foi encarada pela plateia como uma curiosidade ideológica simpática que não merecia rebate político.

O auditório cheio para se debater o “Feminismo e Revolução”

O mesmo não se pôde dizer da seguinte oradora: Louise Yousfi, ativista do movimento de imigrantes, que abriu o debate com a recusa em se afirmar como feminista. A provocação comoveu a audiência, e as jovens militantes começaram a demonstrar sinais de impaciência por todo o auditório. Para Louise, o feminismo seria um movimento do mundo ocidental, que, aplicado ao movimento de imigrantes, serviria para dividir homens e mulheres. Para unir a raça, havia que calar o género. Foi, das intervenções de abertura, a mais aplaudida — sobretudo pelos homens presentes. Mas também a que deu o pontapé para o debate. Não faltou quem a acusasse energicamente de chauvinista, mas também quem, pedagogicamente, explicasse que as bandeiras contra as opressões — de género, orientação sexual e de raça — se combinam sob uma perspetiva de classe.

Sílvia Frederici, do alto da sua autoridade e também da projeção com que nos interpelavavia Skype, adotou essa postura: encerrou o debate, partindo do exemplo do movimento de mulheres na América-Latina, do trabalho com mulheres negras e indígenas, que dificilmente se podem dizer parte de um “movimento ocidental”. E, demonstrando, que, como há 150 anos, o papel dos filósofos é o de, não apenas interpretar o mundo, mas sobretudo de o transformar, Fredirici apoiou-se no exemplo da greve e mobilização internacional de mulheres do último 8 de Março para apelar à resistência e mobilização internacional contra a violência machista. Louise tem já osolhos postos numa grande mobilização de massas para o próximo 8 de Março. Fica dado o recado também para o nosso país.

Uma semana depois, milhares de trabalhadores saíram à rua em França em oposição às contra-reformas laborais do presidente-banqueiro Macron. Estava lá o movimento feminista, LGBT e de imigrantes e, sobretudo, as colunas dos sindicatos eram animadas por mulheres, tanto como por homens. A prática, como sempre, tende a iluminar a teoria, e, mais uma vez, foi na luta de classes que confluíram as bandeiras de raça e género. Porém, não nos vamos adiantar. Na verdade, o que surpreendeu neste evento foi a ausência do apelo à mobilização de dia 21. Não só durante o debate mas também na própria “Casa do Trabalho”, a questão não foi abordada.. Embora as centrais sindicais que mais peso pareciam ter neste centro — a CGT e o SUD-Solidaires — estarem à cabeça do chamado das greves e mobilizações nacionais para a semana seguinte, isso não se espelhava neste “Quartel General” de um dos subúrbios mais proletários do país.

A incógnita que durante toda a semana nos iria acompanhar não foi resolvida nessa tarde. O governo de Macron, inimigo jurado dos trabalhadores, iria encontrar uma resistência na rua com a intensidade com que a classe trabalhadora em francesa já demonstrou ser capaz?As greves e manifestações que — literalmente — incendiaram o país em 2016, voltarão a fazer-se sentir? A juventude e o movimento estudantil vão entrar em cena para defender o seu futuro ao lado dos trabalhadores, como aconteceu tantas vezes no passado? Os sectores oprimidos, mulheres, imigrantes, LGBT’s, que por todo o mundo encabeçam a resistência hoje, juntar-se-ão a uma vaga de lutas anti-Macron?

Ainda era cedo para saber. Nos dias seguintes teria lugar a “Fête de L’Humanité”, a festa anual do PCF — equivalente à Festa do Avante. Contávamos, entre concertos, cerveja e comida tradicional, poder tirar as nossas dúvidas sobre o grau de contestação ao presidente-banqueiro.

Podes ler a segunda parte aqui.

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