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Censura alemã ao Indymedia | Luís Bento

O governo alemão decidiu encerrar o Indymedia a 25 de agosto, uma das plataformas online mais usadas por organizações da esquerda radical na Alemanha. Além disso, a polícia alemã realizou rusgas na cidade de Friburgo onde apreendeu computadores e perseguiu os administradores do Indymedia. A justificação dada para esta ação é a de que esta é uma organização ilegal que tem como objetivo a destruição da Constituição alemã. Esta narrativa pode abrir um grave precedente, podendo ser utilizada novamente contra outras plataformas, grupos ou publicações revolucionárias, levando a que milhares de ativistas se tornem em alvos da repressão estatal.

O Indymedia foi criado em 2001, tendo surgido uma segunda versão em 2008, o que levou à perda de importância da primeira. Conseguiu ganhar uma enorme notoriedade nos últimos dois anos, tendo contribuído para isso o facto de permitir que os seus utilizadores realizem posts anonimamente. Em 2016 a plataforma foi utilizada para divulgar informações pessoais dos participantes na convenção do AfD, um partido nacionalista alemão. Este acontecimento acabou por chamar ainda mais à atenção para o Indymedia, tornando-o um alvo de grupos de extrema-direita.

Desempenhou também um papel fundamental durante os protestos contra o G20, em Hamburgo, tendo facilitado a comunicação entre grupos de ativistas e a troca de informação. Informava os manifestantes das movimentações da polícia e combatia as versões dos meios de comunicação habituais, oferecendo uma narrativa alternativa contada por quem estava no terreno. Este papel fulcral na organização de ativistas durante o G20 levou a que vários políticos alemães exigissem uma resposta do governo e uma aplicação de medidas severas aos manifestantes. O próprio Ministro da Justiça Alemão, Heiko Maas, sugeriu a criação de uma base de dados europeia com os dados de ‘’terroristas de esquerda’’, aumentando assim a repressão e vigilância sobre ativistas de esquerda radical.

Mas o ataque ao Indymedia não foi o primeiro ataque à esquerda na Alemanha. A polícia alemã registou dados falsos e desatualizados sobre vários jornalistas, fazendo com que 32 repórteres fossem impedidos de acompanhar a cúpula do G20. Houve inclusivamente um repórter que foi identificado por ter causado uma explosão numa manifestação que acompanhava em 2011. Esses dados não foram removidos do sistema, mesmo após vários testemunhos terem ilibado o jornalista em causa. Também vários ativistas estrangeiros foram intimidados e identificados na chegada ao aeroporto de Hamburgo, naquele que seria o primeiro passo para reprimir o movimento anti-G20.

Manifestação contra o G20 em Hamburgo, 2017.

Este é um ataque claro a quem procura uma alternativa ao sistema capitalista. Este ataque tenta colocar ativistas, como os de Hamburgo, ao nível de fascistas e outros membros da extrema-direita. A destruição de espaços como o Indymedia retira à esquerda radical uma parte da sua capacidade de organização, espaços em que a identidade dos seus ativistas pode ser ocultada e protegida tanto da extrema-direita como do aparelho estatal. A proibição do Indymedia abrirá um grave precedente e poderemos observar em breve novos ataques a plataformas com objetivos semelhantes. A perseguição de ativistas de esquerda começa com a falsificação dos seus atos e objetivos, tal como aconteceu neste caso com o Indymedia. Tem como objetivo isolar aqueles que mais resistem às injustiças do sistema capitalista e rotulá-los de terroristas. A opressão continuará a aumentar à medida que cresce a oposição ao sistema capitalista, um sistema que já provou não ter mais nada para oferecer além de exploração e miséria. Esta repressão tem como objetivo destruir os pontos de contacto da esquerda anticapitalista na Alemanha, prejudicando a sua mobilização e organização. É a prova de que o Estado burguês está disposto a violar as próprias leis para sustentar a ordem capitalista cada vez mais contestada. A esquerda radical será sempre um alvo a abater pelo aparelho estatal, principalmente enquanto um terrorismo fabricado é usado para justificar ataques a quem se oponha à classe dominante.

A capacidade de organização da esquerda radical durante o G20 colocou em alerta não só a burguesia alemã, mas toda a burguesia europeia, que vê os seus interesses serem colocados em causa por uma geração mais reivindicativa, mais consciente e mais organizada. Este ataque, que não foi o primeiro nem será o último, é apenas uma tentativa de reação à força demonstrada na Alemanha. A esquerda radical necessita de procurar espaços como este e outros, meios de comunicação alternativos que possam armar os seus ativistas de ferramentas de comunicação que nos permitam estar mais preparados para os confrontos que se aproximam.

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