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A crise do capitalismo aplica golpes: o Brasil como vítima | Rômulo Góis

Escrever sobre a conjuntura política brasileira atual é muito difícil, principalmente pela velocidade dos acontecimentos e pelas tramas envolvidas no jogo político em andamento.

Talvez escrever sobre a gênese que afundou o país em crise seja mais fácil do que escrever sobre os desdobramentos futuros ou para o onde o país está navegando. Tal conjuntura deixa qualquer roteirista de Game of Thrones ou House of Cards carenciados de imaginação possível para replicar a gravidade dos fatos e o enredo dos acontecimentos.

Como não se trata de ficção e sim de realidade, é preciso fazer algumas considerações que justifiquem a tão famosa máxima de que “O Brasil não é um país para principiantes” e que nos coloque a par dos motivos que nos levaram a tal situação.

Desta forma, precisamos voltar um pouco no tempo e perceber as determinantes que fizeram o país sucumbir na mais grave crise política, institucional, social e econômica da história recente.

Em 2008, o mundo foi sacudido por um forte sismo no coração do sistema financeiro mundial, a mais densa crise desde 1929, a Crise do Subprime, que em pouco tempo contaminou os Estados Unidos da América e a Europa, fazendo abalar alguns alicerces básicos do capitalismo.

Ficou evidenciado que a desregulamentação do mercado estava no cerne da crise, já que foi esta tal desregulamentação que possibilitou a concessão irracional de créditos sem lastro que justificasse, tendo por base fraudes financeiras na avaliação de risco para o consentimento dos mesmos.

Para os que acreditavam na autorregulação do mercado através de sua famosa “mão invisível”, tão bem propagada pelos seguidores dos Smiths da vida, deparou-se com um mito. O mito da necessidade da mínima interferência estatal nas relações privadas para o desenvolvimento de uma nação, uma vez que a única mão existente e que deixou de ser invisível diante da crise de 2008, foi a mão do Estado que resgatou bancos e impediu que gigantes financeiros fossem à falência, estatizando os mesmos através da injeção direta de bilhões de dólares.

Aos que quiserem assistir, literalmente, a todo processo que gerou a crise de 2008 e todos os efeitos desencadeados, recomendo os filmes e documentários “Inside Job”, “The last day of Lehman Brothers”, “Wall Street 2: Money never sleeps”,Too big to fail”, “Capitalism: A Love Story”.

Fato é que a crise se desenvolveu de uma forma sistêmica e rapidamente transformou-se numa crise econômica mundial. Demorou longos cinco anos a chegar ao Brasil, o que justificou, na época, a famosa frase do ex-presidente Lula, de que a mesma chegaria em terrae brasilis como uma “marolinha” e não como um tsunami que arrasava o mundo.

Mas por que aconteceu isso? O país adotou uma política econômica anticíclica baseada na expansão do consumismo para milhões de pessoas que eram praticamente excluídas (a denominada nova classe média) das cadeias longas do Mercado e que passaram a ter acesso a créditos, bens e serviços.

Polícia de São Paulo reprime manifestantes.

As ações governamentais, durante os dois mandatos do ex-presidente Lula, internamente, tinha por base tanto políticas inclusivas e de transferência direta de renda, a exemplo do Bolsa Família, quanto o estável crescimento econômico brasileiro, impulsionado pelo alto preço das commodities, pela expansão da exploração de petróleo e a manutenção do preço do barril em valores consideráveis.

Externamente prezava pelo reforço de um novo paradigma em termos de relações internacionais que passou a priorizar aproximações sul-sul, reforçando trocas comerciais advindas da multilateralidade com parceiros internacionais estratégicos, a exemplo dos membros do BRICS (Rússia, Índia, China e África do Sul), países da América Latina e países da África Ocidental.

O Brasil deixou de ser o quintal dos EUA, de direcionar tão somente as relações para uma bilateralidade quase sempre desvantajosa, acompanhando vários movimentos esquerdistas na famosa “Onda Rosa” da América Latina, a exemplo de Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, Correa no Equador, Mujica no Uruguai, Humala no Peru, Lugo no Paraguai e Zelaya em Honduras (eleito por um partido de direita, mas que deu um giro político para esquerda).

Com o avançar da crise no mundo, a queda de demanda dos EUA afetou diretamente o crescimento chinês e consequentemente as exportações brasileiras, já que a China havia se tornado o principal parceiro comercial do Brasil, posto que ainda ocupa, US$ 35,9 bilhões face US$ 26,4 bilhões provenientes dos EUA (OEC, 2017).

Para completar a tempestade perfeita, a crise das commodities e a queda do preço do barril de petróleo, que oscilava de US$ 80 à 100 entre 2012/2014, caindo para US$ 48 em janeiro de 2015 e para US$ 30 no início de 2016 (EIA) acabou por transformar a “marolinha” em tsunami, fazendo a crise explodir na mão de Dilma Rousseff, sucessora de Lula.

Feitas essas considerações, é preciso ainda voltar um pouco no tempo, e tentar enxergar uma conjuntura dentro da conjuntura, um pesadelo dentro do pesadelo, algo como as imersões retratadas no filme Inception de Christopher Nolan.

Compreender a história para não permitir que a mesma se repita como tragédia se torna necessário, principalmente para perceber como a chegada da crise econômica no Brasil desencadeou uma crise política, culminando num golpe de estado.

Um novo golpe, um golpe sem armas, um golpe parlamentar, que vitimou países como o Paraguai, com a destituição em 48h de Lugo, e em Honduras, com o cinematográfico sequestro de Zelaya e posterior destituição, e que também fez por vítima o Brasil, destituindo Dilma da presidência, com o objetivo de avançar uma agenda neoliberal no país e acabar com as conquistas sociais duramente conquistadas, e foram muitas, provenientes dos anos do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder.

Precisamos, assim, voltar à 2002, e fazer uma autocrítica necessária aos rumos escolhidos pelo PT, liderados por Lula, almejando gerar uma governabilidade política possível dentro do sistema presidencialista brasileiro, que acabou por resultar na crise política vivenciada.

O marco inicial do caminho escolhido foi a “Carta ao povo brasileiro”, durante a primeira campanha eleitoral de Lula, que representou uma intencionalidade e uma inflexão forte de um projeto de nação para agregar partidos localizados no espectro político da direita brasileira, como o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), partido do atual presidente ilegítimo Michel Temer, e para acalmar setores do grande capital financeiro.

Não só para acalmar e agregar esses setores, mas para compartilhar o poder com os mesmos. Prova disto foi que depois de Lula eleito, e durante seu mandato, os bancos privados tiveram lucros recordes, assim como as grandes empresas privadas nacionais, que se tornaram gigantes multinacionais à custa de benefícios estatais, como a Odebrecht, a JBS, a Camargo e Corrêa, a OAS, a Queiroz Galvão, que passaram a continuar a influenciar os rumos políticos do país e também a perpetuar práticas de corrupção historicamente existentes.

Manifestação a exigir a saída de Temer da Presidência do Brasil e eleições directa já.

Seria possível governar o Brasil sem essa coligação de forças? Possivelmente não, porém o timing de fazer reformas estruturais necessárias, quando Lula estava com 70% de aprovação e popularidade em 2008, não foi aproveitado.

Reformas essenciais não foram feitas. Reformas para mudar o sistema político nacional, reformas que possibilitassem um encadeamento de forças mais igualitária para os partidos de esquerda, que livrassem o país do modelo de governabilidade fadado a ruptura, que vistoriassem a dívida pública e a política de manutenção dos juros da dívida.

Reformas que expandissem à população instrumentos diretos de exercício da democracia, que possibilitassem a reforma agrária e a distribuição de terra, e que democratizassem a mídia acabando com oligopólios formadores de um poder paralelo nacional. Reformas educacionais baseadas numa pedagogia da esperança e da libertação, que proporcionassem formação política para população e plantassem sementes de que um mundo mais solidário e justo é possível.

Nada disso foi feito e observem que estamos tratando explicitamente de reformismo.

Com o fim do crescimento econômico, a possibilidade de governabilidade acabou e os setores conservadores, que antes apoiavam o governo Petista, romperam bruscamente não só com o pacto silencioso estabelecido, mas com as regras democráticas vigentes no país.

Não se pode transformar a complexidade dos fatos dentro de uma conjuntura tão dificultosa numa relação binária, mas quando os dois lados, a classe proletária e os representantes do grande capital, passam a não ganhar como antes ganhavam, a bomba historicamente explode na mão da classe menos favorecida e o acirramento da luta de classes irrompe um horizonte de pacificação social possível.

E assim foi construído um golpe diuturnamente, com apoio massivo dos médias para destituição de Dilma sem ela ter cometido um crime de responsabilidade que justificasse. Golpe com o objetivo continuado de colocar no poder representantes diretos do grande capital para possibilitar a manutenção dos lucros e benefícios outrora obtidos e garantir a expansão de uma forte agenda neoliberal para o país.

Há uma lógica a ser observada em médio prazo sobre a extensão para zonas periféricas do planeta das políticas austeras aplicadas intensamente e primeiramente nos países periféricos da Europa, visando estancar a sangria no centro da crise econômica de 2008 e tentar diminuir a agonia do Sistema Capitalista.

Quando o capitalismo entra em crise, ele aplica golpes e o Brasil foi uma das vítimas.

Talvez por não terem conseguido resolver uma crise de liquidez e solvência do Mercado, talvez por não terem conseguido gerar os efeitos desejados nos centros de poder, ou talvez para manter os privilégios dos países do norte ao preço de um novo colonialismo pós-moderno, com características financeiras mais agressivas e globalizantes e alimentadas através de pós-verdades.


*Ativista pelo Coletivo Andorinha — Frente brasileira democrática em Lisboa, pelo PSOL e pelo Bloco de Esquerda em Portugal.

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