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Hamburgo: quando a solidariedade está na Rua | Frederico Carreiro

Frederico Carreiro*

Durante o fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, Hamburgo viveu um clima de contrastes intensos, de emoções fortes e de luta acesa. Tentar falar e discutir sobre aquilo que foram os protestos do #StopG20 é um esforço quase inglório porque, durante aqueles dois dias, quem teve a mesma sorte que eu e esteve em Hamburgo presenciou uma diversidade indiscritível de formas de lutar e resistir, das mais moderadas às mais radicais, das mais pacíficas às mais violentas e das mais organizadas às mais caóticas — o denominador em comum entre todas elas foi a solidariedade na luta por um Mundo mais justo e livre de exploração!

Na sexta-feira de 7 de Julho a marcha #WelcomeToHell tentava mostrar, para a chegada dos chamados “líderes do mundo”, a desgraça e a miséria que o capitalismo globalizante trouxe a tantos lugares do planeta, sobre o mote We are fucking angry. Infelizmente, e sem razão alguma, a polícia reprimiu a marcha, que seguia pacífica, poucos metros à frente do sítio onde tinha começado, utilizando todas as armas do arsenal militar que, ao longo do fim-de-semana, viria a exibir. Polícias fortemente armados, canhões de água e tanques eram alguns dos instrumentos de opressão utilizados contra os civis que se encontravam em Hamburgo, não esquecendo os helicópteros que sobrevoaram a cidade ao longo de todo o fim-de-semana. Manifestantes, repórteres e até simples observadores foram agredidos e borrifados com spray pimenta.

O entendimento deste momento é importantíssimo para compreender e contextualizar tudo aquilo que se passou nos dias que se seguiram, bem como para se evitar cair no erro de pensar que foi um grupo de vândalos que só estavam interessados em partir montras — o que, apesar da enorme cobertura mediática, não representou uma quantidade minimamente significativa dos manifestantes. As barricadas, os cordões humanos para impedir a polícia de passar — e todas as outras formas de resistência — foram uma reação proactiva, inteligente e necessária contra uma polícia a quem era indiferente se as manifestações seguiam pacíficas ou não; se tinham razão de ser ou não; uma polícia que, sob ordens dos mesmos líderes que se encontraram naquela cimeira, estava apenas interessada em reprimir e abafar os gritos de quem não aceita mais a exploração.

Fotografia do Berliner Zeitung.

É importante entender, ao debater a cimeira G20 e os protestos que a acompanharam, que esta cimeira é antagónica a todos os valores que a esquerda radical representa e defende e, por isto, deve ser combatida nas ruas, sempre. Não só porque não é mais que uma reunião em que vinte governos (20!) decidem o futuro da economia mundial à porta fechada e sem qualquer interesse em permitir um debate pleno e aberto sobre as decisões que tomam. Colocam nas suas próprias mãos o destino da esmagadora maioria dos países pobres. Grande parte destes “líderes” não representam sequer a população do seu país — Trump decerto não representa a maioria dos americanos e penso que poucos se atreveriam a dizer que o mandato de Erdogan, Temer ou Putin é de todo democrático — quanto mais a população do mundo inteiro. É, sem sombra de dúvidas, uma reunião para um conjunto de governantes poderosos jogarem xadrez com o destino do resto do mundo. Em última análise, é afirmar que a União Europeia, que se tenta cobrir sobre o seu manto de “valores democráticos e humanitários”, faz business as usual com, por exemplo, a Turquia de Erdogan — olhando para o lado e esquecendo sem pudor as crianças refugiadas exploradas e a oposição curda perseguida e presa — ou com a Arábia Saudita — lembrando-nos que a crítica ao “extremismo islâmico” serve apenas para fazer crescer a xenofobia e que os direitos de qualquer minoria são, na realidade, um pormenor comparados com a riqueza desse país.

Os milhares de protestantes vindos de todo o Mundo e que se agruparam em Hamburgo organizaram-se e uniram-se para proteger os seus locais de encontro e de ativismo da força repressiva que, sem sombra dúvida, a polícia representa e representou durante aqueles dias. O estádio do clube desportivo FC St.Pauli serviu de abrigo, cantina, local de convívio e ativismo para centenas de ativistas, assim como o centro social Rote Flora. Por isso, e porque muitos e muitas camaradas foram corajosos o suficiente para arriscarem a liberdade e a vida, vimos dezenas de pessoas voltarem para trás a correr em direção à polícia de que há segundos atrás fugiam, para impedir que esta entrasse no estádio e agredisse aqueles que lá dentro estavam sentados a comer e a partilhar histórias — e impediram mesmo!

Hoje, depois de uma série de ministros alemães tecerem comentários em que compararam os protestos a neo-nazis e pedirem uma repressão forte sobre as organizações de esquerda-radical, torna-se claro como a água que a organização da cimeira em Hamburgo, uma cidade conhecida pela presença forte e organizada da esquerda, serviu apenas de pretexto para aumentar o controlo sobre estes grupos — sugerindo-se até que se fechassem centros como a Rote Flora.

A esquerda-radical deve, num momento em que os “líderes do mundo” mostraram preto no branco que não permitem qualquer contestação ao seu poder, olhar para Hamburgo como um ensinamento e aprender com a fraternidade, solidariedade e união dos manifestantes quando a polícia os agrediu — limpando os olhos a quem era atingido por spray pimenta, por exemplo — e que ofereceram casas e tendas para desconhecidos dormirem. Ao mesmo tempo e não obstante, devemos também entender que se a polícia não tem pudor em usar gás lacrimogéneo contra manifestantes sentados em fila e com as mãos no ar, se usa câmeras de vídeo para filmar a cara dos e das manifestantes, mesmo que não esteja ato violento nenhum a acontecer, então a esquerda tem que estar organizada e preparada para isto e não pode, nunca, sucumbir perante aqueles que transformam quem devia servir o povo numa milícia militarizada e preparada para defender um regime podre e decadente.

Fotografia de Morgengagazin.

Se a esquerda-radical aspira a ter alguma hipótese na contestação nas ruas — e só somos esquerda-radical enquanto este for o local privilegiado de activismo e acção política, seja ela de que forma for — temos que nos organizar internacionalmente e não esquecer que, debaixo de um regime capitalista, a liberdade de protesto e de marchar sem medo vai apenas e só até onde a elite burguesa que governa quiser. Esta forma de organização solidária deve, em primeiro lugar, ser inflexível pela liberdade dos presos políticos. Não há justiça nem paz até que os mais de trinta ativistas, que foram mantidos em prisão preventiva após os protestos do início do mês, sejam libertados. Um exemplo interessante desta união da esquerda foi a concentração e marcha de dia 9 de Julho, onde dezenas de organizações de esquerda de toda a Europa, desde partidos políticos a movimentos de bases, se juntaram na distribuição de propaganda e na troca de contactos por uma rede mais forte e eficiente para a luta internacional, tendo de seguida marchado pacificamente numa massa humana que parecia interminável. É imperativo que se torne esta união em algo duradouro e permanente, ao invés de algo pontual para que possamos auxiliar camaradas de todo o mundo nas suas lutas nacionais, evitando que as fronteiras que nos impõem nos impeçam de lutar por todos e todas as trabalhadoras, em qualquer parte do Mundo!

Em suma, é essencial que Hamburgo sirva de ensinamento para que entendamos que a luta anticapitalista pode e deve superar a barreira das diferenças ideológicas entre fações próximas mas distintas da esquerda e permitir que nos unamos para combater juntos os inimigos que temos em comum: seja o fascismo, o nacionalismo, o capitalismo ou o neoliberalismo. É necessário, se queremos construir em conjunto um Mundo justo e igualitário que acreditamos ser possível, que nos unamos para fazer cair o sistema opressivo com que não nos conformamos!


*Activista

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