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When We Rise: uma história que merece ser contada | Ricardo Gouveia

Em 1971, a revista americana Life incluía na capa do seu número The Year in Pictures, a expressão gay liberation, chamada para um artigo no interior, intitulado Homosexuals in Revolt. Dois anos após as revoltas de Stonewall Inn, em Nova Iorque, uma revista de grande distribuição dedica uma dezena de páginas a ilustrar e descrever uma indignação transformada em militância, em orgulho e em confronto com a polícia e as instituições.

É essa a chave para o arranque de When We Rise, série em que Gus Van Sant, aclamado realizador de Milk (2008) e Dustin Lance-Black, vencedor do Óscar de melhor argumento pelo mesmo filme, através desta serie televisiva, decidem dar uma lição histórica de activismo LGBT aos Estados Unidos e ao mundo da perspectiva de personagens reais, a partir de uma das mais vistas estações americanas, a ABC.

Tanto Cleve Jones, instruído na disputa política por Harvey Milk, como Roma Guy, incansável lutadora pelos direitos das mulheres, ou Ken Jones, notório pelo seu trabalho de apoio e acolhimento a jovens sem abrigo, têm acesso a esse mesmo número da revista Life. Todos eles em diferentes pontos do globo, nesse momento, conta-nos a série, se virão a reunir em São Francisco, todos eles sentindo o chamamento para uma luta que prometia ganhar fôlego.

A série, com recepção mista e desempenho aparentemente desapontante a nível de audiências, procurou narrar quase quarenta anos de uma história que raras vezes nos é contada e que, ao contrário de outros movimentos emancipatórios, pouco ou nenhum lugar merece em manuais escolares.

E esta série é uma lição, sim, e o seu timing certeiro; pois para cada história de luta e de progresso há infinitas histórias de retrocesso, de sofrimento e de recuo perante as condições de exclusão social que, tantas vezes, nos ameaçam de várias frentes. Foi assim com a Gay-Related Immune deficiency (GRID), nome de baptismo do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), quando parte substancial de toda uma geração de homens que têm sexo com homens foi morta pela negligência, pelo boicote à investigação científica, pela falta de acesso aos melhores cuidados de saúde; morta pelo preconceito.

Em todo o caso, e pese embora um daqueles momentos finais melosos com os quais é difícil conter as lágrimas, são os primeiros episódios os mais interessantes, pertinentes e inspiradores: das perseguições policiais à resistência colectiva, organizada, desobediente, às marchas nos bairros mais conservadores de São Francisco. O percurso de Cleve, personagem central e autor do livro homónimo da mini-série, começa na descoberta, na animação e na opção de se manter afastado do Partido Democrata; perde o entusiasmo, transforma-se em luto, em resignação; renasce, já no século XXI, focado na reivindicação legal do casamento e ancorado nas esperanças despertadas pela era Obama. O anti-clímax é, de certa forma, doloroso.

Com efeito, a disputa legal contra a discriminação com respeito ao casamento acaba por consumir impiedosamente a narrativa dos últimos episódios. Na série, e em vésperas desse longo caminho até ao Supremo Tribunal, o advogado que lidera o caso a favor do casamento, Ted Olson — republicano e ex-funcionário da administração Bush — explica bem como não há qualquer contradição em ser-se um fervoroso conservador republicano e, simultaneamente, apoiante desse reconhecimento legal para pessoas do mesmo sexo: “não há nada mais conservador que o casamento”.

A série When We Rise é baseada no livro do activista Cleve Jones.

Não é um conflito novo no movimento LGBTQIA+, nem tampouco estranho às próprias discussões que tiveram e continuam a ter lugar, deste lado do oceano. A centralidade das reivindicações legais como o casamento deve sempre ser entendida, não como o culminar de uma luta, que esta não se esgota em assimilações e acesso àquilo que são as convenções e instituições dominantes, mas como um passo simbólico, tacticamente importante pela janela de visibilidade que cria e, consequentemente, pelo alento que inspira, em cada um e cada uma de nós que viveu ou vive com repúdio de si própria.

Os temas abordados são vários, os conflitos são presentes e os dilemas podem bem ser eternos; nem a violência, a física e psicológica, a social e institucional, nomeadamente sobre as pessoas transgénero, está, de maneira alguma, ultrapassada. Uma das virtudes desta série é, contudo, o facto de não cometer o erro de tantos filmes e séries de grande distribuição, tão contestados pelos activistas trans nos últimos anos. Nomeadamente, o facto de, apesar da reconhecível inclusão de tramas acerca de pessoas e questões trans, continuar a ser prática atribuir a pessoas cisgénero a interpretação dessas personagens. Foi o caso de Danish Girl, o filme de Tom Hooper que atribui o papel de Lili Elbe, artista dinamarquesa dos anos 20 e, alegadamente, umas das primeiras pessoas que se sabe terem passado por cirurgias de redesignação sexual, a um homem hetero, cis — e já agora, de classe abastada — Eddie Redmayne — nomeado para o Óscar de melhor actor pelo seu desempenho, em 2015. Em When We Rise, Cecilia Chung, activista pelos direitos trans, sobretudo no que diz respeito a questões de acesso a cuidados de saúde, é interpretada por Ivory Aquino, actriz que se assume publicamente, após integrar o elenco da mini-série de Lance-Black e Van Sant.

Pesados todos os factores, When We Rise é uma série deliciosa e que merece louvor. Pela visibilidade que dá a uma luta e uma história, a destas personagens, que merece ser contada uma e outra vez, como pelo facto de optar por cruzar diversas lutas e por reflectir diferentes condições de discriminação: económica, racial, falta de acesso a cuidados de saúde, transfobia, entre outras. A injustiça e a desigualdade não se combatem só quando todxs estamos protegidxs pela lei. Também se combatem quando todxs temos — e construímos — o nosso lugar na História. When We Rise é um contributo nesse sentido.

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