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Quando o inferno nos bate à porta | Mário Martins

Confesso que demorei imenso tempo para começar este texto. Não por não ter nada para contar, mas porque os relatos de quem passou um inferno — a melhor palavra para descrever os acontecimentos recentes nos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, entre outros — são imensos e dramáticos.

O que descreverei de seguida é fruto da minha vivência pessoal enquanto voluntário mobilizado para o terreno, mas também de quem andou comigo, prescindindo, muitas vezes, de dias de trabalho para darem um pouco de si a quem demasiadas vezes não tinha absolutamente nada. Xs voluntárixs, xs escuteirxs, xs bombeirxs e funcionárixs de instituições públicas ou privadas de solidariedade social, que, não raras vezes, estavam o tempo todo no terreno com tão poucas horas de descanso. A todxs elxs devemos um imenso obrigado. Sobre xs bombeiros creio que todo o agradecimento é mais do que merecido. É obrigatório, diria.

É de referir que o que vou descrever irá, não poucas vezes, no sentido contrário ao que está a ser divulgado pelos meios de comunicação social mainstream. Sim, as informações que vêm a luz dos holofotes das televisões não correspondem, em demasiados aspectos, à realidade. Mas, também, não irei procurar responder ao porquê desse filtro, se é que assim o poderemos designar. Neste momento, mais do que procurar respostas creio que seja a altura de começar a desvendar o que, para mim, que não sou especialista, será um caso peculiar pela conjugação de diversos factores.

O inferno na terra…

Desde domingo passado, o dia de maior preocupação, que saio de Pombal com mantimentos em direcção às zonas afectadas. Avelar, Figueiró, Castanheira e Pedrogão. Saí numa carrinha com mais companheiros e a primeira paragem foi em Avelar. Lá, e perguntando se necessitavam do abastecimento de mais mantimentos

Uma de inúmeras casas ardidas

No domingo, dia de maior preocupação, saí de Pombal, como já disse, numa carrinha com mantimentos em direcção à zona afectada. Primeira paragem foi em Avelar. Perguntámos se necessitavam do abastecimento de mais mantimentos, ao que responderam que não, que já tinham bastantes, mas que sabiam que Castanheira de Pêra e Pedrogão Grande estavam com necessidades urgentes.

Antes de nos deslocarmos para lá e enquanto a equipa ia telefonando, ou tentando, encontrámos uma amiga de um dos integrantes da caravana. Estava lá, sem saber dos seus familiares. Deixada pela mãe, que partiu em busca do pai. Antes, receberam um telefonema do pai, que já não as contactava há muito tempo. Este desligou repentinamente. Tinha ido para o meio da serra, onde ainda havia rede, e já estava rodeado de fogo.

A caminho de Castanheira de Pêra, o cenário era desolador. Cinzento, escuro e fresco. Sim, ironia do destino, senti o ar mais fresco lá do que em Pombal, por exemplo. Carros, casas e florestas queimadas davam-nos as boas vindas. Chegados a Castanheira, as chamas percorriam as encostas da serra com uma força inqualificável. Num ponto de água, ali ao lado da Praia das Rocas, estavam bombeiros a abastecer-se e a descansar. Prontamente lhes facultámos água e comida. Estavam exaustos e, sendo seis da tarde, ainda não tinham almoçado. Na despedida, agradeceram-nos. Não me contive e disse que eu é que lhes agradecia. Ali ao longe via-se a encosta da serra a arder com chamas que nem eu, acostumado a incêndios florestais, alguma vez imaginaria ver.

Chegados ao quartel dos bombeiros e depois de termos descarregado o que necessitavam, interrogámos sobre o que estaria mais em falta. Um dos responsáveis, a chorar, respondeu-me com um simples “obrigado”; outro, afirmando que tinha de sair para ir buscar a sua mulher e sogra por a sua localidade estar ameaçada, despediu-se sem conter as suas lágrimas. Nesse domingo já se dizia que oitenta pessoas tinham morrido. Números dados por representantes locais dos bombeiros. E, sim, o número oficial não está a bater certo com o número de mortos reais.

Aliás, está questão do número real de mortos, tem a ver, creio eu, por duas questões. Primeiro, pelo estado em que muitos corpos se encontram, cujo processo de identificação se torna mais complexo e, por consequência, mais moroso. Segundo, porque creio haver uma tentativa por parte das autoridades de resguardar esse número, para quando tudo estiver mais calmo, mediaticamente. No entanto, e para dificultar a questão dos desaparecidos, é sabido que a zona de Pedrogão Grande tem uma forte comunidade estrangeira residente, que muito provavelmente não estará totalmente recenseada, o que, ao juntar-se o facto de ter sido fim-de-semana, haveria a possibilidade de muitos familiares terem aproveitado para visitar as suas famílias, como aconteceu em Várzeas, Pedrogão Grande. Nesta última morreram onde cinco pessoas, não contabilizadas, e quatro familiares dessa família estão desaparecidas.

Estrada nacional N236. RTP

Em Pedrogão a situação era de incerteza. Angústia e perplexidade eram as companheiras daquelas duras horas. Só havia tempo para descarregar e organizar quem chegava para ajudar. No posto de comando as informações eram várias e, não raras vezes, contraditórias. No entanto, o que me chocou mais foi o descontrole da situação, o de não saberem o que fazer. O céu carregado de fumo, um ambiente sufocante. Falava-se, na altura, que o fogo andara vinte quilómetros em menos de dez minutos. Algo nunca visto…nem por estas bandas nem no país.

Por todo o lado por que passávamos podíamos ver o rasto da destruição. Na Estrada Nacional 236, a que liga Figueiró a Castanheira, inúmeros carros destruídos jaziam ali como lembrança do que acontecera. Os pinhais, eucaliptos e outras árvores, muitas delas dobradas por completo sem sequer se terem partido, mostravam a violência do vento e a intensidade da chama. Não me lembro de ver uma simples erva, arbusto ou que que seja em algum lado. Todo o terreno estava negro, carregado de cinza e com locais ainda fumegantes. Os carros queimados, esses, ainda se mantinham em Pobrais, Nodeirinho, Vila Facaia e noutros locais. Continuavam ali na rua como sinais inoportunos do que ali acontecera.

Casas destruídas ou parcialmente destruídas, onde os seus donos se recusam a sair. Não era raro ver pessoas a morar em locais sem tecto ou com a casa completamente queimada, mas com uma divisão menos queimada. O motivo? Não queriam abandonar o pouco que tinham e que ainda lhes restava. Ainda hoje muitas das casas continuam com as mesas colocadas ou com as chaves nas portas. Foi como se as pessoas se tivessem eclipsado, para nunca mais voltarem…

O tempo de ajudar as pessoas

Na segunda-feira a seguir fui novamente com uma equipa para as zonas afectadas. Pela primeira vez o céu, parcialmente limpo, permitiu ver a dimensão do cinzento. Demasiado. Regressados a Castanheira chegou-nos um cheiro demasiado penoso, que nunca me hei-de esquecer. Nunca. Um cheiro nauseabundo, demasiado característico, que teimava em nos lembrar o que ali se passara. Pela primeira vez na minha vida soube o que era o cheiro da morte. Era aquele. Entregámos umas roupas no gimnodesportivo de Castanheira de Pêra, o que nos agradeceram. Pedimos para saber do que precisavam. Naquele momento respondeu-nos um senhor, um dos que estavam a organizar os esforços, que o que precisavam era que lhes trouxessem quem o fogo lhes tinha roubado. Pediu-nos para pousar para uma fotografia. Alguns de nós ficaram reticentes pela ideia por simplesmente não querermos publicidade, mas apenas ajudar.

Dirigimo-nos para Pedrogão. Sabíamos que a Câmara queria começar a distribuir mantimentos e que precisavam de voluntários. Fomos imediatamente. Falámos com os responsáveis, e o Presidente, com ar fatigado, veio-nos cumprimentar e agradecer. Antes estivera com a Comunidade Chinesa de Lisboa, que queria saber o que era preciso para ajudar. Depois de cumprimentados e agradecidos pela ajuda, fomos encaminhados para um funcionário que nos iria acompanhar. Disseram-nos logo que iríamos para as zonas mais afectadas: Pobrais, Nodeirinho e zonas circunvizinhas. E fomos.

A aceitação da população não é fácil. Dirigimo-nos para zonas em que fomos as primeiras “autoridades” a lá chegar. Muita raiva, muita frustração e muita dor. Os relatos vinham sem sequer perguntarmos. Um deles foi o de uma senhora com cerca de oitenta anos, cuja casa ficava no meio do pinhal a um quilómetro do vizinho mais próximo, que salvou a sua casa — não se sabe como. Esta senhora continua sozinha porque a sua filha está a tomar conta do pai, doente, em Lisboa. Ou o caso de um senhor, cuja mão e cara estavam camadas, que não fez um som enquanto lhe prestávamos assistência médica. Ou o caso de outra senhora de oitenta anos, que vivia sozinha, e que às três e meia da manhã descia e subia uma ladeira para ir buscar água para combater as chamas que assolavam o seu barracão, cheio de lenha e com algumas garrafas de gás. O que a salvou foi a sua tenacidade e força. Aliás, chegou-nos inclusive a confessar que se a casa ardesse, então que ela arderia com ela. Chorou pelos bombeiros enquanto assistia à impotência perante o inferno que os rodeava. Ou das famílias inteiras, inclusive com crianças, queimadas vivas. Ou como uma senhora, em Castanheira de Pêra, perdeu nove pessoas da família. E que não estão sequer contabilizadas no número oficial. Ou a neta que morreu no colo da avó. Ou… São demasiadas histórias. E pesadas.

Voluntários armazém alimentos

As populações não se pouparam a proteger tudo e todos, independentemente das nacionalidades ou das desavenças passadas. Uniram-se na dor, mas também na solidariedade.

Enquanto entregávamos várias porções de medicamentos encontrámos uma idosa e uma senhora inglesa. Não se percebiam uma à outra, mas disseram que gostavam uma da outra e que se não tivesse sido a idosa que a senhora teria perdido a vida. Ou de como as populações cuidavam dos animais, cães, gatos, e outros. Juro que temi que isso não fosse acontecer. Mas quando a calamidade toca a todos, parece que se cria um elo inquebrável de irmandade. Mesmo com os pobres animais.

A generosidade colectiva versus o histerismo colectivo

A generosidade de todxs foi tocante. Em Pombal, por exemplo, chegou-nos uma imensa quantidade de tudo o que foi pedido. Houve momentos em que — nem cinco minutos depois de ter sido dado o alerta de pedido de voluntários — imensos acorreram para se oferecer. Não me lembro de semelhante onda de solidariedade desta dimensão, mas também não me recordo de semelhante desgraça. De Norte a Sul, passando pelas comunidades estrangeiras, todxs quiseram contribuir, todxs quiseram ajudar.

Esta situação, infelizmente, também veio trazer à tona uma realidade esquecida, em que a desertificação e a pobreza assumem preponderância. Lembro-me de várias situações em que foi entregue comida e outros bens — e muitíssimo bem, creio eu — a quem não tinha mais dinheiro até ao final do mês. Pessoas que não tinham sido afectadas directamente pelo incêndio. Ou de pessoas a deslocarem-se aos concelhos vizinhos para poderem pedir alimentos sem serem alvo de estigmas sociais, sem serem reconhecidas.

No entanto, creio que a generosidade não teve, em algumas instituições, o agradecimento devido. Durante a semana foi-se tomando conhecimento de casos de locais com imensos mantimentos, enquanto que noutros escasseavam. Aliás, houve uma ocasião em que o grupo em que me inseria se viu obrigado a sair de uma IPSS, localizada em Pedrógão Grande, para se dirigir para outra em Castanheira da Pêra por a segunda apenas ter água, leite e barritas. Também se deu o caso de instituições públicas não permitirem o escoamento dos seus mantimentos, e quando o permitiram fizeram-no em excesso. Não há coordenação, o que permite a propagação de boatos e o abuso mediático e político. A história do Canadair que caiu, mas que afinal não caiu; o dos suicídios que aconteceram e que depois não aconteceram; o das instituições irem pela terceira vez em dois dias entregar mantimentos porque houve um grupo de jovens pseudo-religiosas, provenientes da cidade, que, só por acaso, tinham uma prima jornalista na RTP que lhes arranjou um daqueles furos e lavagem de imagem em horário prime-time, enquanto que no dia anterior tinham dito a um senhor para beber água da torneira, quando esta sabia pior do que sabe-se-lá-o-quê.

Neste momento a situação tende a acalmar. Exceptuando pessoas que se estão a aproveitar desta calamidade em proveito próprio, como o de se fazerem passar por técnicos de segurança social e afins, todos estão, na sua maioria, empenhados em reconstruir o que foi feito em cinza.

Sobre as causas do incêndios, bem como das questões florestais, deixo para quem as estuda e percebe melhor do que eu. Posso, na minha modesta opinião, afirmar que foi uma situação completamente atípica. Como se costuma dizer: foi tudo conjugado na hora e no momento errado. Espero, sinceramente, é que este processo passe a ser mais transparente do que está a ser. Arrisco-me a dizer, com quase toda a certeza, que há mais de uma centena de mortos. Quantos, no total, não o sabemos. Desalojados, esses, também não se sabe. E em casas destruídas fala-se em noventa, mas creio ser só em Pedrógão.

Finalizo com o que escrevi, ainda no domingo, dia 18 de Junho, numa publicação do facebook: “Não sei o que acontecerá, nem quanto tempo levaremos a reconstruir o que se perdeu nas chamas. Mas sei, do fundo do meu ser, que esta situação terá que nos fazer reflectir sobre tudo. A floresta, os meios de actuação e resposta, a prevenção. Mas também não consigo deixar de pensar nas pessoas que sofrem e no amparo que lhes temos de dar. E se não há ali tanta dor…”

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