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Unidade Popular: a esquerda-radical contra-ataca! | Zisis Zannas

Zisis Zannas é ex-deputado no parlamento grego e membro do Comité Central da Unidade Popular

A fundação da unidade popular baseou-se no esmagador “NÃO” proferido pelo povo grego no referendo de 5 de Julho de 2015. Contra o terrorismo dos poderes soberanos na União Europeia e Grécia, a grande maioria social, com uma enorme participação de jovens, opôs-se com uma autêntica revolta popular. A resistência da população grega, sem precedentes relativamente em termos de duração e massividade, especialmente durante os primeiros dois anos de imposição dos memorandos, é também um grande legado para a Unidade Popular. O referendo expressou uma resistência generalizada ao plano estratégico de imposição de uma austeridade duradoura, de retirar aos trabalhadores todos os direitos e condições, de explorar a propriedade pública e de abolir a democracia e impor um regime de soberania limitada.

Um mês depois do “NÃO” do povo grego no referendo, o voto relativo ao terceiro memorando mudou drasticamente o panorama político. A liderança do governo grego, resultado das eleições de 25 de Janeiro, dissolveu violentamente o contrato social que a vinculava à maioria popular, semeando a frustração e restabelecendo o medo. Esta liderança mudou de barricada ao bombardear as classes trabalhadora e média com novas medidas de austeridade. Este desenvolvimento permitiu aos credores avançarem com um golpe político que viola todos os conceitos de soberania popular. Com o terceiro memorando o conselho de administração internacional tornou-se mais agressivo, representando o expoente máximo de humilhação com a criação de um fundo que hipoteca o património público e social por gerações.

Manifestação em apoio do “Não” no referendo de 5 de Julho de 2015

O terceiro memorando foi apenas o início. O quarto memorando, assinado há alguns dias atrás, visa uma destruição adicional das relações de trabalho, uma nova redução das pensões complementares e principais para um nível degradante, uma dedução fiscal dos rendimentos agrícolas e dos pequenos e médios grupos sociais, bem como uma série de outras medidas que serão aplicadas nos próximos meses.

Nenhuma pessoa séria acredita realmente que estas medidas sociais desastrosas podem ser eficazes, mesmo que de uma perspectiva estritamente orçamental. O seu falhanço é descontrolado e levará a novos pacotes de medidas de austeridade de modo a perpetuar este ciclo vicioso, criado pelos Governos que aplicaram os anteriores memorandos.

Trabalhadores, agricultores, jovens, profissionais liberais e pequenos empresários empresas estão a ser destruídos para se garantirem as prestações dos empréstimos, que são, ao mesmo tempo, desembolsadas em 99% para credores ou banqueiros. É curioso esperar-se que a liderança do governo grego, que assinou os terceiro e quarto memorandos e que desde então tem sido elogiada pelos representantes dos credores e pela oligarquia grega, irá, de alguma forma, ser desresponsabilizado por isso. Se entrarmos no comboio errado, todas as estações em que pararmos ao longo do percurso serão as erradas.

Para uma vasta frente de “NÃO até ao fim”

Por todas estas razões se deu a constituição da Unidade Popular, uma frente polÍtica e social com o objectivo de derrubar os Memorandos e a austeridade, o desvio anti-democrático e a transformação da Grécia numa colónia europeia, em que a dívida soberana se afirma como um instrumento de uma enorme pressão.

Logótipo da Unidade Popular

É necessária uma grande frente popular e patriótica credível, consistente e altruísta que revigore as esperanças traídas, derrotando o medo e dando ar à vitória da larga, popular e jovial corrente do “NÃO” de 5 de Julho. Os que tentam pregar este esforço com antecedência são acusados de “apostasia” e de terem colocado em causa o “primeiro governo de esquerda”. Apenas os que escolheram apoiar o terceiro memorando traíram a esquerda e a maioria popular que se formou em seu redor.

A Unidade Popular não é uma bandeira eleitoral de oportunidade, nem aspira pertencer ao actual sistema político corrupto e defunto. Trata-se de um conjunto de organizações políticas, movimentos e de cidadãos, que aspira expressar, inspirar e fortalecer um autêntico movimento popular com iniciativas de auto-organização. Queremos dar voz aos que, hoje em dia, não a têm, e ser a força dos fracos. Quer ser o ponto de partida para uma frente representativa de união entre os trabalhadores, os desempregados, os camponeses, os trabalhadores por conta própria, as pequenas e médias camadas, os intelectuais e as pessoas da civilização, com o esforço comum de transformar a sociedade grega.

Neste esforço, não há espaço para hegemonia pessoal ou verdade exclusiva. Existem várias sensibilidades sociais, tradições políticas progressistas e preferências ideológicas. São condições desta frente a sua função democrática, centrada nos próprios militantes, nas suas reivindicações e objectivos. As forças militantes pertencentes à Unidade Popular estão ligadas entre si por um forte acordo político em prol de uma alternativa imediata, vital e radical ao Memorando da Tragédia. Uma solução que irá resultar para o benefício das classes populares à custa do grande capital; que libertará a Grécia do imperialismo mortal dos centros imperialistas. Estamos unidos pela procura comum, através de caminhos e processos divergentes, de uma nova sociedade livre dos laços de exploração e de todos os tipos de opressão. Uma sociedade de solidariedade, justiça e liberdade no caminho para o socialismo do século XXI.

Saída da Prisão monetária da zona Euro — Conflito com a EU neoliberal

Estamos plenamente conscientes de que o anulamento do memorando — e ainda mais, as mudanças radicais estruturais que descrevemos — irão causar uma forte reacção por parte do poder soberano da União Europeia. Desde o primeiro momento que tentarão estrangular os nossos esforços com o intuito de travarem a liquidez dos bancos, usando o Banco Central Europeu (BCE) para o efeito.

Assim sendo, os problemas de saída da zona euro e do romper com as políticas e escolhas neoliberais da UE, que seguem caminhos cada vez mais reaccionários e antidemocráticos, são colocados na agenda. Não como um produto de uma qualquer persistência ideológica, mas simplesmente como realismo político elementar. A dolorosa experiência vívida nos últimos meses tem mostrado que até as forças mais cépticas e dominantes da UE, liderada pela Alemanha, não são nem “aliadas” nem “parceiras”. São sim chantagistas económicos e violadores políticos. Não hesitam em processar todo um povo com a mais cruel versão de “castigo colectivo” quando as suas decisões colectivas não são do agrado dos interesses financeiros europeus.

A recuperação da soberania monetária e a introdução de uma moeda nacional, construída democraticamente e com foco no desenvolvimento social, não são um fim eFilial do Banco da Grécia é manchada por tinta vermelha durante uma manifestação no centro de Atenas a 6 de Dezembro de 2010. REUTERS/Yannis Behrakis

m si mesmos. São instrumentos necessários para se proceder às mudanças radicais descritas — e para as quais, certamente, o fiel da balança deverá depender da luta das classes populares. Apesar das dificuldades inevitáveis dos primeiros meses, nada justifica os Cassandres[1] que identificam tal passo como um desastre nacional ou até mesmo como um holocausto económico. No século XX 69 associações monetárias colapsaram sem que ocorresse um qualquer apocalipse. A criação de uma nova moeda nacional como pré-requisito para a implementação de um programa progressivo de reconstrução e saída da zona euro não é apenas uma opção viável, mas também uma escolha na esperança de colocar o país no caminho do desenvolvimento.

É importante referir que a saída da zona euro e o conflito com a UE não significam obrigatoriamente o isolamento da Grécia do ambiente europeu. A solidariedade dos movimentos sociais e dos povos, bem como das forças progressistas, dos Estados-membros da UE será fundamental. A Unidade Popular pretende contribuir para a criação de um movimento pan-europeu em torno de objectivos que reflictam os interesses comuns dos trabalhadores, independentemente da nacionalidade.

A Unidade Popular não se sente nostálgica pela Grécia capitalista do dracma. Sabemos que a situação de pré-adesão ao euro era tudo menos um paraíso para as classes exploradas do nosso país. Não obstante, os 13 anos de convivência com o euro, especialmente os últimos, estão longe de serem positivos. Nos primeiros sete anos, e para algumas classes da população, reinou a era do crédito e do consumo sob as ruínas acumuladas da base produtiva do país; nos últimos seis anos foi a descida ao inferno com os memorandos de entendimento sem que haja uma luz ao fundo do túnel. Está na hora de um caminho diferente.

Mural em Atenas. Ekathimerini

A recuperação da soberania monetária, com a rescisão da dependência do Banco Central Grego ao BCE por meio de medidas governamentais e da criação de uma nova moeda nacional, proporcionará a liquidez necessária à economia com o cancelamento dos onerosos pagamentos da dívida. Estes factores irão, decididamente, ajudar a fortalecer as exportações, reduzir e substituir gradualmente as importações de produtos nacionais, fortalecer as bases de produção e o fluxo turístico do país. Promoverá a criação de postos de trabalho através de um programa necessário de investimento produtivo público, iniciativas de desenvolvimento de empresas públicas em larga escala, apoio ao sector social da economia e reabilitação do crédito para pequenas e médias empresas. O nosso programa político para o país pretende implementar uma transformação radical da sociedade e introduzir uma moeda nacional para uma via socialista. Os seus pontos fundamentais são:

● A abolição dos Memorandos social e economicamente destrutivos;

● O não pagamento da dívida;

● O pagamento por parte da Alemanha das indemnizações de ocupação e das vítimas e desastres das atrocidades nacionais-socialistas durante a II Guerra Mundial, reivindicando-as política e legalmente.

● O fim imediato da austeridade e a implementação uma política de redistribuição da riqueza social em benefício da classe trabalhadora e em detrimento dos oligarcas. Atenção especial para o estratos sociais mais vulneráveis, aumentando os seus apoios sociais e, gradualmente, o salário mínimo, pensões e benefícios de desemprego, bem como os serviços de saúde e de bens essenciais (electricidade, água, aquecimento).

● A nacionalização do sistema bancário e a sua operacionalização sob controlo social com a total garantia dos depósitos.

● A revisão radical do código do trabalho.

● O fim das privatizações, do desmantelamento e dissolução das empresas, redes e infraestruturas públicas.

● O fortalecimento da educação pública gratuita e da ciência, pré-requesitos para uma transformação produtiva para um novo e eficaz modelo social.

Para a Unidade Popular a reinvindicação do poder governamental não é um fim em si mesmo, mas parte do objectivo geral de reivindicar o poder politico para que se forme uma aliança popular mais ampla. Tal aliança serviria um imediato programa político que poderia ser colocado em prática se se baseasse no poder do povo organizado e das suas distintas instituições, no movimento laboral, nos movimentos locais e ambientais, nos movimentos de solidariedade e nas variadas formas de auto-organização. A implementação de um tal programa poderá mudar as relações sociais e redefinir as condições para um caminho alternativo para a sociedade grega alcançar o socialismo.

Nos dias que correm, um programa de divulgação imediata pode ser imposto por um governo baseado no poder de pessoas organizadas e das suas próprias instituições distintas, do movimento operário, do movimento estudantil, nos movimentos locais e ambientais, dos movimentos de solidariedade, formas de auto-organização popular. A implementação deste programa poderá alterar as relações sociais e dar forma às condições de modo a moldar, de outra forma, a sociedade grega numa perspectiva socialista.


[1] Referência à personagem mitológica de Cassandra, princesa da cidade de Tróia, que previu e alertou a sua família e povo para a destruição total, tendo sido desacreditada e considerada louca.

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