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As eleições como palco do confronto social | João Félix

João Félix é membro do Socialist Party Wales, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Inglaterra e Gales

A primeira parte deste artigo encontra-se disponível aqui.

As razões objetivas para a convocação de eleições são complexas. As razões que Theresa May evocou para as convocar têm um fundo verdade por esta pretender ganhar credibilidade e legitimidade para negociar um acordo do “Brexit”, um que defenda os interesses da classe dominante[J1] . Os interesses da City de Londres e das grandes empresas multinacionais. No entanto, é de acrescentar que também o fez numa tentativa de fortalecer a sua posição no seio do Partido Conservador, aproveitando o momento de aparente impopularidade que Jeremy Corbyn vivia há seis semanas atrás. May pretendia obter uma maioria absoluta nas eleições legislativas para poder silenciar os seus opositores internos, bem como para reorganizar as fileiras do seu partido num momento de crise interna.

Não obstante, a convocação de eleições é também uma tentativa de antecipar os ânimos e movimentos na sociedade britânica, nomeadamente o enorme descontentamento público por causa da austeridade e dos cortes nos serviços-públicos, especialmente no SNS e na Educação. Não é por acaso que as eleições legislativas foram anunciadas um mês e meio depois de uma manifestação que reuniu cerca de 250 mil pessoas em defesa do SNS, o que, na opinião do autor, representa uma tentativa deliberada de sabotar o nascimento de um movimento e campanha de massas em defesa do SNS, da educação pública e de repúdio à austeridade. Fazendo paralelismos, seria uma campanha similar à da “poll tax”, que derrotou o Governo de Margaret Thatcher nos anos 80. Uma vitória esmagadora de May, que era vista como provável quando as eleições foram convocadas, serviria para desanimar uma larga maioria dos activistas e classe trabalhadora envolvidos nas campanhas nascentes em defesa do Serviço Nacional de Saúde, escola pública e contra a austeridade, adiando o desenvolvimento de uma onda organizada de oposição aos ataques do governo.

Dispositivo de emergência após atentados em Londres

Após os trágicos atentados em Londres, Guilherme Rosa, Vereador pelo Partido Trabalhista em Londres, comentou no Expresso que as eleições foram marcadas mais por questões de terrorismo e segurança do que pelo “Brexit”. Embora importantes, especialmente depois dos recentes eventos trágicos de Manchester e Londres, estas questões não estão a ser analisadas de forma isolada pela classe trabalhadora, bem pelo contrário. Faz-se commumente ligação à política de cortes e aos ataques dos representantes políticos das classes possidentes, que se repercutiu numa onda de indignação contra os cortes efectuados nos serviços de f1emergência, de segurança e no SNS. Perante a crescente contestação, Theresa May respondeu com tentativas demagógicas de aproveitamento político, tentando dividir a classe trabalhadora. As suas tentativas saíram goradas, principalmente quando até a Federação Policial já tinha protestado contra a redução do número de efectivos policiais (cerca de 20 mil desde 2010), para além de um ex-chefe da Polícia Metropolitana a ter acusado de negligência.

A três dias das eleições legislativas o único dado concreto é a incerteza. Há seis semanas atrás as sondagens colocavam o Partido Trabalhista a cerca de 25 pontos percentuais de diferença do Partido Conservador, mas na passada segunda-feira, 5 de junho, as sondagens apenas estipulavam uma diferença entre 5 a 10 pontos. Esta cavalgada nas sondagens não só causou pânico na classe dominante como galvanizou ainda mais o movimento anti-austeridade, bem como uma grande parte da classe trabalhadora e dos jovens. Para a derrocada do Partido Conservador contribuíram as medidas anunciadas por Theresa May, como a “taxa de demência”, o fim dos subsídios ao aquecimento no Inverno e o fim dos almoços escolares. Por outro lado, medidas apresentadas no manifesto do Partido Trabalhista de cariz claramente socialista foram fulcrais e um evidente ponto de viragem. Entre estas encontram-se a promessa de renacionalizar as companhias ferroviárias, o aumento do salário mínimo nacional para £10/hora, a ilegalização dos contratos casuais (zero-horas), a abolição das propinaso investimento na educação gratuita e universal e o aumento no financiamento do SNS. Estas medidas apanharam tanto a classe dominante como a direita do Partido Trabalhista de surpresa. Não esperavam que fossem tão populares.

Jeremy Corbyn num comício de campanha

Desde o ínicio da campanha e, depois, com a apresentação do manifesto que a ala direita do Partido Trabalhista, no qual se inclui o aparelho partidário e lideranças do País de Gales e da Escócia, assumiu uma estratégia de distanciamento face a Corbyn e ao movimento anti-austeridade. Não obstante o aumento do fosso entre a ala direita e a ala de Corbyn, esta última cometeu, mais uma vez, o erro de não ter permitido a seleção democrática aquando das eleições, o que resultou, mais uma vez, na permanência de uma maioria de candidatos da ala direita nas listas. Estes, confrontados com a popularidade do manifesto, têm-se remetido ao silêncio, esperando por uma melhor oportunidade para voltarem à carga e tentarem derrotar o movimento anti-austeridade.

A popularidade do presente manifesto não impede que este pudesse ter ido para além das promessasjá referidas. Deveria também prometer a nacionalização da banca e das grandes companhias sob o controlo público dos trabalhadores, sindicatos e comunidades de forma a travar o inevitável ataque e sabotagem da [J2] classe capitalista, mas também para criar as bases de uma economia democraticamente planificada pelos trabalhadores e comunidades. Uma economia que sirva os interesses da população.

Apesar das limitações do manifesto e de se considerar que este deveria incluir medidas mais avançadas de marcado cariz socializante, é de realçar que o movimento em torno da figura de Jeremy Corbyn representa um importante passo em frente. Este demonstra que ideias e medidas socialistas não são só possíveis como também populares. A mensagem contra a austeridade demonstra que políticas socialistas podem granjear um apoio maciço e galvanizar a classe trabalhadora na luta por mais conquistas, transformando radicalmente a sociedade. Por essa razão o apoio crítico a Jeremy Corbyn, e eventualmente o apoio a um governo liderado por si, sublinhando as suas limitações e posições recuadas, é a posição correcta a tomar.

Independentemente do resultado das eleições uma coisa é certa: nada será como dantes. Theresa May convocou as eleições legislativas na assunção de que alcançaria uma vitória esmagadora, o que, neste momento, não se mostra provável. Mas se tal eventualmente ocorrer, aproxima-se no horizonte uma onda de raiva e de descontentamento da classe trabalhadora. As lutas centrar-se-ão nas condições laborais e na defesa do SNS e da educação pública. Se May alcançar uma maioria simples encontrar-se-á numa frágil situação para se manter como líder do Partido Conservador tanto por razões internas do partido, em que as feridas ainda se mantêm em carne viva, como externas. Por exemplo, vários líderes sindicais já discutem abertamente a preparação de greves coordenadas no caso de uma vitória do Partido conservador, tendo o líder de esquerda do sindicato da função pública apelado a um “conselho de guerra”.

Cartaz de campanha do Partido Trabalhista em defesa do SNS

Se o Partido Trabalhista sair vencedor nas eleições, ou mesmo com um resultado que permita ao mesmo formar um governo liderado por si com acordos eleitorais com partidos menores (como o SNP ou os Democratas-Liberais) — regressará ao parlamento pejado de contradições e num estado de “guerra civil” latente no seu seio. A maior parte dos deputados serão blairistas, opor-se-ão às tentativas da liderança e da base do Partido quando este tentar implementar as medidas presentes no seu manifesto eleitoral. Tentarão sabotá-las a qualquer momento e em qualquer situação com ou sem ajuda de outros partidos. Principalmente no caso de coligações ou acordos eleitorais é possível que tentem impedir que Corbyn seja primeiro-ministro exigindo um candidato mais “consensual” para os interesses instalados.

Se o movimento anti-austeridade pretende transformar estruturalmente o Partido Trabalhista, então terá obrigatoriamente de democratizar as suas estruturas de forma a remover a ala pró-capitalista, ala que é, atualmente, uma minoria, mas que continua a controlar o aparelho partidário. O movimento terá também de aceitar, de forma federativa, a participação de outras organizações socialistas e sindicais para que se torne efectivamente numa força política de e para a classe trabalhadora. Ao contrário do que alguns carreiristas de esquerda no Partido Trabalhista parecem pensar, um partido não é um clube de futebol, mas uma ferramenta para defender os interesses de uma classe. A classe trabalhadora precisa urgentemente de uma organização sua, seja o Partido Trabalhista ou um novo partido de massas.

Independentemente do resultado eleitoral, uma coisa é certa: todos os socialistas, sindicalistas e trabalhadores na Grã-Bretanha devem estar preparados para os confrontos que aí vêm. E a criação de um partido que represente a classe trabalhadora, seja no Partido Trabalhista ou um novo partido, é um passo fundamental para tal. As atuais condições políticas e económicas, que se repercutem na consciência das massas, estão a desenvolver uma situação de tensão crescente que pode vir a desencadear terramotos políticos e movimentos de massas no futuro. Esta mudança subjectiva é especialmente observável nas gerações mais jovens (70% dos jovens dizem querer votar Corbyn), embora não se limite às mesmas.

Nestas eleições as linhas divisórias são claras. De um lado encontra-se o Partido Conservador, que defende os interesses da classe dominante e que se encontra em estilhaços, e a ala direita o Partido Trabalhista; e do outro lado um alargado campo social na luta contra a austeridade dentro e fora do Partido Trabalhista e com a participação de movimentos sociais. Uma vitória de Corbyn, se consequente na concretização das medidas do manifesto, mesmo com todas as suas contradições e insuficiências para transformar a sociedade, seria um importante passo em frente na luta de classes. Mas mesmo com uma derrota do Partido Trabalhista o movimento de massas na sociedade não se desvanecerá e precisará de ser organizado e definido estrategicamente, focando-se na luta pela educação e SNS, estendendo-se para os restantes ataques contra os interesses da classe trabalhadora.

Uma nova etapa da luta de classes começará no dia 9 de Junho. For the many, not the few [1].


[1]“Para a maioria, não para só para alguns” — slogan do Partido Trabalhista nestas eleições.

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