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Reino Unido: Eleições e luta de classes | João Félix

João Félix é membro do Socialist Party Wales, Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Inglaterra e Gales

A segunda parte encontra-se disponível aqui.

Uma enorme prova de que grande parte da classe trabalhadora e classe média proletarizada procuram ativamente uma solução contra o capitalismo foi a eleição surpresa de Jeremy Corbyn para líder do Partido Trabalhista (PT), em Setembro de 2015. Corbyn faz parte da ala esquerda que se manteve no Labour durante o período em que este se transformou num instrumento puramente capitalista com a ascensão de Tony Blair e do “New Labour” — a terceira via. Ironicamente, as medidas do “New Labour” para quebrar o poder dos sindicatos — “um membro, um voto” e a sua abertura a “apoiantes registados” – permitiram que uma larga secção de trabalhadores, jovens e classe média radicalizada se juntasse para eleger Jeremy Corbyn, criando dois partidos num só. Por um lado, existe uma maioria de base com uma liderança que se afirma enquanto movimento anti-austeridade, mas, por outro lado, existe também uma estrutura e aparelho que permanecem sob o controlo de apoiantes do “New Labour”. O confronto entre estes dois movimentos antagónicos (um anti-austeridade e outro pró-capitalista) não se fez esperar, originando uma guerra civil entre ambos pelo caráter de classe do PT.

A convocação do referendo, prometido por David Cameron e que representa um sintoma deste crise sistémica, originou uma divisão no seio do Partido Conservador e, consequentemente, no seio da classe dominante britânica, acentuando as brechas profundas no seio do aparelho do PT, exacerbando o confronto entre os dois movimentos. Embora vários políticos, como Boris Johnson, antigo Mayor de Londres e agora Secretário dos Negócios Estrangeiros, e Michael Gove, antigo Secretário de Estado da Educação e Justiça, e Nigel Farage, líder do partido de extrema-direita UKIP, tenham apoiado o “Brexit” por razões puramente oportunistas, a verdade é que a grande maioria da classe capitalista não beneficiaria do isolamento. As posições comuns da classe capitalista materializaram-se durante o referendo com ambas as campanhas oficiais a recorrerem ao racismo, à xenofobia e a tentativas constantes de dividir a classe trabalhadora.

Toda esta saraivada de propaganda teve um efeito concreto na classe trabalhadora, mas não constituiu o fator preponderante para o resultado, como abordaremos na segunda parte deste artigo. No entanto, o falhanço de vários líderes sindicais e dos movimentos sociais em criarem uma clara divisão entre os interesses da classe trabalhadora e os da classe capitalista foi um tema marcante, com os líderes das maiores centrais sindicais a vergarem-se à chantagem do capitalismo, ao argumento de que saída da UE seria desastrosa para os trabalhadores.

Cartaz de campanha do Partido Trabalhista.

Restou a um número de sindicatos militantes e partidos de esquerda — entre eles o Socialist Party, secção em Inglaterra e Gales do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores — defenderem o caso socialista de saída da UE, um projeto político da classe dominante. Uma saída internacionalista, pelo interesse das classes trabalhadoras da Europa e não pela xenofobia das classes dominantes, resumida no slogan “Não à UE dos patrões, sim a uma Europa dos Trabalhadores”. Jeremy Corbyn, que por muito tempo partilhou publicamente esta opinião, não resistiu à pressão da ala direita do PT e fez campanha pelo “Remain”. Caso este tivesse feito campanha a favor de uma saída, pela esquerda, da UE, então a mensagem racista e xenófoba de ambas as campanhas da classe dominante teria sido decididamente enfraquecida.

O resultado do referendo foi um choque para a ordem estabelecida. Embora alguns votos a favor do “Brexit” tenham sido motivados por razões racistas e xenófobas, em consequência da propaganda da comunicação social mainstream, a verdade é que a grande maioria dos votos a favor do “Brexit” foram de protesto contra as condições e os ataques contra a classe trabalhadora. Foi um voto contra a elite. Apesar das sondagens realizadas antes e após o referendo demonstrarem superficialmente que a imigração foi um factor considerável, não podemos descurar uma análise mais aprofundada das mesmas. Nesta é revelado que o voto se relacionou mais com os cortes, desemprego e austeridade, em que a maioria das pessoas que colocavam a tónica na imigração como problema afirmavam a ideia errónea de que os imigrantes “roubam” os postos de trabalho e que sobrecarregam o SNS. Estes votos foram essencialmente motivados por uma preocupação com o desemprego e os efeitos da austeridade, bem como pela defesa do SNS, mesmo que apontando aos alvos errados.

É dever de todos os socialistas e sindicalistas combater estas ideias de uma forma construtiva, apontando que a classe trabalhadora britânica e migrante não são culpadas pela degradação dos serviços públicos e condições de trabalho. Bem pelo contrário, estas últimas são um produto do actual desenvolvimento do sistema capitalista. Para que se substitua este sistema por um que planeie democraticamente a economia, de forma a criar uma sociedade que satisfaça as necessidades e desejos da maioria da população, a unidade de classe é fundamental. Unidade para construir uma sociedade em benefício da vida de todos e não para o lucro de alguns.

Theresa May a discursar num comício. Fotografia da New Statesman.

Para além do resultado do referendo e de como este foi percepcionado, é importante referir que o resultado também contribuiu de forma decisiva para acentuar as divisões dentro da classe capitalista e do seu representante político máximo, o Partido Conservador. As fraturas latentes transformaram-se numa ferida viva com a demissão de David Cameron na manhã pós-referendo, originando uma luta fratricida pela liderança, em que Theresa May saiu vitoriosa. Os vários interesses capitalistas esperavam que ela fosse capaz de unir as várias tendências dentro do seu partido. Essa esperança revelou-se infundada. Para além destes combates intra-partidários, o pânico entre a classe dominante revelou-se também na forma como, após o referendo, o “New Labour” se mobilizou para depor Jeremy Corbyn. A maior parte dos deputados do PT, pertencentes à ala direita, atacaram-no em consequência do resultado. Este desenvolvimento foi também possível por a liderança em torno de Corbyn não ter optado por adotar medidas que aprofundassem a mudança de carácter da base do partido, preferindo um método de conciliação de classe com o “New Labour”, para além de ter rejeitado os inúmeros apelos para a re-seleção democrática dos candidatos. Esta última medida permitiria à base eleger candidatos anti-austeridade, desalojando os elementos pertencentes ao “New Labour”, medida que granjea uma grande concordância na base e que é defendida pelo Socialist Party. Estas acções — ou inacções — demonstraram que a consciência de parte da auto-proclamada liderança da ala esquerda do Partido Trabalhista — carreiristas de esquerda que se colaram ao movimento à volta de Corbyn — se encontra atrasada em relação a uma parte da classe trabalhadora.

Não obstante, a acção do “New Labour” falhou espetacularmente. Corbyn foi re-eleito por uma margem ainda maior do que tinha sido nas anteriores eleições internas. O PT é hoje o maior partido social-democrata/socialista da Europa em resultado do fluxo de novos membros. Embora o golpe tenha falhado, não é de esquecer que este contribuiu para alimentar a narrativa da comunicação social de que Corbyn não era popular e de que as suas políticas não ressoavam na maior parte da população. Narrativa que caiu por terra nas últimas semanas.

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