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Memória operária e a nova composição de classe | João Santos

Os últimos dois anos trouxeram para o palco mediático e político um sujeito que havia sido dado como morto com a euforia do “fim da História”, a classe operária. Entre o Brexit e as eleições presidenciais francesas, passando obviamente pela eleição de Donald Trump, estes “esquecidos pela globalização” ocuparam um papel de destaque nas manchetes da imprensa internacional. No espaço político este ressurgimento teve efeitos contraditórios. No campo da esquerda radical colocou-se o foco na sua crescente impotência para reorganizar comunidades que outrora eram seus bastiões. Já no campo oposto, o da extrema-direita, assistiu-se a um crescimento exponencial, fruto da conquista dessas mesmas zonas com forte tradição comunista e/ou operária.

No entanto, é preciso olhar com mais detalhe para esta classe operária que nos é apresentada. É que mais do que um sujeito revolucionário, como era até meados dos anos 80, surge agora nos vários discursos como um sujeito-zombie que se tornou revanchista face às ruínas criadas pela globalização. Trata-se agora não de uma classe vista e vivida a partir de uma solidariedade internacionalista e que, portanto, coloca em causa o capitalismo enquanto sistema global, mas de uma classe que experiencia a marginalização face a este mesmo sistema. Esta marginalização está a ser aproveitada em larga medida pela extrema-direita para disseminar um discurso identitário que gira em torno do nacionalismo e do racismo.

Face a esta nova realidade, importa-nos refletir acerca do papel da esquerda e de como esta pode contrariar a tendência atual que por um lado olha para a antiga classe operária como algo anacrónico — portanto resquícios de um período que nada traz de novo. E que por outro lado, abre o caminho ao discurso da extrema-direita que aproveita os efeitos destrutivos do neoliberalismo para hegemonizar estas regiões com discursos superficialmente anti-sistema, mas que mais não são do que posições racistas que colocam trabalhadores contra trabalhadores. Em última análise, é necessário questionar as formas de resolver a contradição criada com a passagem do operário fabril para o operário terceirizado, que opera essencialmente na área dos serviços, reconstruindo assim a potência revolucionária de uma classe fragmentada.

Esta fragmentação coloca-nos perante a necessidade militante de reorganizar e re-articular a classe operária tradicional, a mesma que viu as suas comunidades destruídas pelo neoliberalismo, e a nova classe trabalhadora, que sendo filha da derrota dos anos oitenta não se revê no tradicional movimento operário. Esta última acaba cooptada pela nova linguagem dos vencedores, onde se encontram a categoria de colaborador, voluntário ou empreendedor, tornando-se, portanto, funcional ao sistema capitalista. É aqui que importa pensar o papel da memória e a forma como a esquerda tende a olhar para o passado.

Operários da Lisnave durante a grande manifestação de 12 de Setembro de 1974

A Esquerda entre a Melancolia e Memória

Recentemente foi publicado em inglês o livro Left-Wing Melancholia Marxism, History, and Memory do historiador Enzo Traverso. Nesta obra o autor debruça-se sobre a forma como a esquerda, e concretamente a esquerda marxista, olha para o seu passado e sobre o papel ocupado por uma certa melancolia neste olhar para trás.

Como é notado pelo autor, a melancolia «sempre foi uma face escondida da esquerda, mesmo que só tenha vindo à superfície no fim do século XX com o fim do comunismo». Contudo, o que diferencia a melancolia relativa a outros momentos, como o de 1848 ou da Comuna de Paris, daquela sentida após 1989, é que este último evento «não ocorreu após uma batalha não criando assim orgulho (…) ficando uma montanha de ruínas que não sabemos como reconstruir”. De facto, a dialética entre o passado e o futuro encontra-se hoje aparentemente quebrada, deixando-nos num eterno presente que é favorável à hegemonia neoliberal, apontando ao passado o crime de ter sido revolucionário, logo criminoso, e ao futuro a afirmação de que não existe alternativa ao seu modelo.

No entanto, Traverso deixa ao longo do seu argumento uma nota de esperança em relação a esta melancolia existente no campo marxista. Segundo este, uma vez que essa melancolia nunca se tratou de uma posição conservadora, mas de um primeiro passo para reconstruir um projeto alternativo, não existe razão para desacreditar a possibilidade de reconstrução desse mesmo projeto após o fim da União Soviética.

Apesar de partilhar certa esperança com o autor, parece-me, no entanto, que é um erro não observar como 1989 nos trouxe uma melancolia impotente que acabou por afetar a esquerda de uma forma geral. Essa melancolia torna-se visível por estes dias quando vivemos as comemorações dos 100 anos da revolução russa, onde de facto se debate os acontecimentos de 1917 — notando que é um debate em larga medida confinado à academia –, mas não se usa esse passado de forma estratégica. Em vez disso ele é olhado como uma espécie de patrimonialização que não basta para quebrar as correntes do presentismo dominante. Essa melancolia materializa-se também na relação entre a esquerda e o seu tradicional sujeito histórico, a classe trabalhadora. Com as derrotas sofridas nos últimos 30 anos, o papel antagonista dos trabalhadores foi-se esbatendo, ficando apenas a recordação heroica, mas neutralizada, de um movimento operário que sonhou conquistar o poder. Falta-nos hoje um arquivo que permita reconstruir uma história operária. Não do ponto de vista institucional e museológico, mas do ponto de vista antagonista, que recupere aquilo que Mario Tronti denomina como “os resíduos vivos do passado”[1]. Que nos possibilite fugir a esta melancolia impotente e que nos permita construir a memória enquanto arma para combater o presente e construir o futuro.

“Élouge de l’amour” de Godard, 2001.

Esta tarefa ganha mais urgência quando vivemos nos dias de hoje uma derrota profunda. Para combater a instrumentalização por parte da extrema-direita das comunidades operárias é preciso compreender a profundidade da derrota sofrida, que não ocorreu sem luta — como nos é dito pelo discurso hegemónico — mas alterou drasticamente o cenário da luta de classes e a forma de reativar a relação passado-futuro.

Trata-se, assim, da tarefa que a esquerda deve assumir de novo: a de ir ao encontro das antigas comunidades operárias, chamando a si o dever de recordar as experiências daqueles que agora são denominados como «esquecidos pela globalização». Reconstruir um elo entre este passado recente e o presente dos trabalhadores, não para preservar a classe trabalhadora como uma identidade, mas para recuperá-la enquanto sujeito antagonista, que, não sendo homogénea como outrora, é hoje composta por diferentes camadas em constante recomposição.

O Caso Português: reconhecer a derrota sem sermos derrotados

O caso português, não sendo tão dramático em dimensão como as experiências vividas nas comunidades operárias em França ou nos EUA, não fugiu à regra do capitalismo vitorioso que, nos anos 80, se tenta libertar dos constrangimentos criados pela classe operária na sua versão industrial. No entanto, a herança que temos hoje em Portugal é de certa forma uma ausência de reflexão em torno dessa recomposição operária, que se começou a dar entre os anos 80 e 90 e uma perspetiva hegemónica, que à falta de melhor expressão, poderá ser considerada “abrilista”.

Em certa medida o biénio revolucionário continua a ser o quadro de referência para a esquerda portuguesa. Sendo que, ao mesmo tempo que isto acontece, nos últimos 42 anos a memória do período revolucionário tem sido em grande medida neutralizada. Os seus momentos mais radicais são rotulados de excessos que importa expurgar da memória nacional.

Face a este cenário, a ação da esquerda não deve, obviamente, passar por abandonar um marco tão relevante como o processo revolucionário, mas trata-se sobretudo de abandonar um certo mito fundador para passar a olhar para este período, assim como para o que lhe seguiu, em toda a sua complexidade. É que se o biénio de 74/75 representa uma transformação profunda, o que se lhe seguiu com a viragem neoliberal, iniciada pelos governos de Cavaco Silva, e que se começou a consolidar em meados da década de 80, também marcou profundamente as gerações mais novas de trabalhadores. É o inicio do quebrar de um certo laço entre os trabalhadores que experienciaram as lutas dos anos 60/70 e os novos trabalhadores que iniciam a sua condição laboral num ambiente bastante distinto.

Em 2017 este laço outrora enfraquecido praticamente desapareceu. Desta forma importa fazer hoje aquilo que Antonio Negri denomina como «reconhecer a derrota sem sermos derrotados»[2]. Recuperar a experiência operária, as suas memórias e lançar aquela tarefa cultural incitada por Tronti de conhecer o caminho que nos trouxe até aqui, bem como os efeitos deixados pelo avanço neoliberal. Por conseguinte, como podemos materializar esta recuperação estratégica da memória? Nas condições atuais torna-se difícil oferecer uma resposta mágica que solucione este problema. No entanto, existem algumas hipóteses que, não estando necessariamente separadas, nos podem ajudar a reativar a história e memória operária.

Em primeiro lugar, coloca-se hoje a necessidade de recuperar o gesto marxiano de valorizar a subjetividade dos trabalhadores. O Marx de 1880, que com o seu Inquérito Operário, construiu um instrumento relevante para a produção de conhecimento, que teria como ponto de partida a experiência operária. Esta ferramenta teórico-prática ganhou novos contornos nos anos 60 e 70 em Itália através de experiências como as do Operaismo e mais tarde da Autonomia Operaia ou em França através do grupo Socialisme ou Barbarie, evoluindo para o que hoje se conhece como co-pesquisa, onde o militante deixa de ser produtor exclusivo de conhecimento e os operários meros objetos em análise. Sendo uma ferramenta em grande medida para o presente — e que falta nos fazia uma esquerda que se lembrasse da importância dos espaços produtivos[3] — a co-pesquisa é também um instrumento central para se recuperar a memória e experiência operárias. Se quisermos hoje compreender o que se passou no interior da classe operária — veja-se uma região como a de Setúbal, que foi completamente desmantelada entre os anos 80 e 90 — não apenas no que toca a transformações quantitativas, mas principalmente qualitativas, precisamos de recuperar essas vozes que foram sendo abafadas em nome da modernização capitalista[4].

A segunda hipótese que importa realçar está relacionada com a constituição de um arquivo antagonista. Como já foi referido, existem de factos trabalhos meritórios no campo dos arquivos e museus institucionais, sendo de louvar arquivos como o do Projeto Mosca, onde se encontra uma grande parte do espólio anarquista ou o trabalho arquivista da CGTP. Não obstante, falta-nos hoje a constituição de um arquivo atravessado por uma potência política vivente que nos permita compreender «o sofrimento, a esperança e a luta»[5] das gerações de trabalhadores que nos antecederam e que, sobretudo, nos possibilite a recuperação dessa potência de outrora.

O caminho que temos a percorrer para romper com o presente neoliberal enquanto eternidade não será fácil. O que só torna mais urgente a nossa tarefa de re-articular o ponto de vista operário — que tenha presente a experiência do operário fabril e da classe trabalhadora que nasceu nos anos 80 — de forma a garantir, por um lado, que face aos avanços constantes do inimigo os nossos mortos se mantêm em segurança[6] e, por outro, ganhemos força para combater o presente e conquistar o futuro.


[1] Cf. Tronti, Mario (2015), Dello spirito libero Frammenti di vita e di pensiero.

[2] Cf. Negri, Antonio(1993), A anomalia Selvagem: poder e potência em Spinoza.

[3] Veja-se por exemplo o conjunto de artigos do coletivo Passa Palavra em torno das “Lutas nos Aplicativos”.

[4] Apesar de ainda se focar no período revolucionário não poderia deixar de referir o documentário “Nous, ouvrières de la Sogantal” (2007) de Nadejda Tilhou que exemplifica bem a recuperação da subjetividade e memória operária, sendo que neste caso se dá em articulação com a questão de género.

[5] Cf.Tronti, Mario, ibidem, p. 49

[6] Veja-se a sexta tese de Walter Benjamin em «Sobre o Conceito de História»: Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

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