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Pensar o mundo: um exemplo estudantil | Rebeca Moore

O Colectivo Agora Pensa surgiu no início de 2016 por iniciativa de um conjunto de activistas estudantes e ex-estudantes da Universidade de Coimbra. Define-se, desde a sua génese, pelo seu carácter aberto e democrático, em que qualquer pessoa pode propor temas de discussão, integrar o colectivo e participar na sua organização e dinamização.

Porque surgiu o Colectivo Agora Pensa? Se, durante vários anos, participávamos activamente nas lutas estudantis, na Geração à Rasca e no QSLT, onde se construía uma mobilização política em torno de questões como propinas, cantinas, bolsas e se fazia a ponte com a situação politica nacional e mundial, actualmente, e com o aprofundar da crise, o cenário é bem diferente. A passagem pelas universidades é cada vez mais breve, um entra e sai frenético, com um aumento exponencial de trabalhadores-estudantes, que têm preocupações que extravasam o mundo do ensino. Em consequência, as reivindicações tradicionalmente estudantis encontram-se, de momento, arrumadas na gaveta. Parece que não há saída: faz-se o curso a correr e espera-nos um trabalho precário num call-center ou num café. Há uma falta de referência nas lutas, nas greves, nas assembleias de estudantes. Somos empurrados para as saídas individuais, o “cada um por si” (à semelhança do que vemos no mundo do trabalho). As associações académicas e núcleos de estudantes, na maior parte das vezes, nada fazem para contrariar este cenário.As lutas, quando surgem, são pontuais e defensivas contra a privatização, contra a violência, etc.

Debate organizado pelo Agora Pensa sobre o avanço dos muros na Europa. Fotografia retirada da página de facebook do Colectivo Agora Pensa

Na verdade, é só mais um reflexo do que se passa no mundo. Crises cíclicas esmagam os de baixo, o desemprego é elevado, os salários são baixos, as oportunidades são poucas ou nenhumas. Fizeram-nos acreditar que o sistema em que vivemos é a única hipótese, descredibilizando as alternativas, as organizações e os movimentos de base, virando-nos cada vez mais uns contra os outros, dividindo-nos através de guerras, governos reaccionários, xenofobia, racismo, machismo. Vemos isso no esmagamento dos levantes populares no Médio Oriente, na crise dos refugiados, nos governos de Donald Trump e Michel Temer, no crescimento da extrema-direita e nas alternativas à esquerda, que cedem a quem durante muitos anos enfrentaram do outro lado da barricada, levando muitas vezes a conclusões como a de que “são todos iguais”.

Mas o cenário não é todo ele tenebroso. Existem e resistem movimentos e colectivos que querem fomentar a discussão, o debate político e a mobilização dos/as estudantes, dos/as trabalhadoras, embora muitas vezes se encontrem divididos e sejam minoritários. Alargar as lutas, criar pontos de convergência e fomentar a solidariedade são tarefas essenciais. A juventude, quem estuda, quem trabalha, quem passa mal ao final do mês, precisa de mais. Precisa de discutir, debater, resistir — e tem-no feito, desde as grandes mobilizações contra o governo Trump, à paralisação internacional de mulheres, passando pelas lutas do Fora Temer. É possível e necessário que estas resistências se elevem a um novo patamar mais radical e mais unificado.

O Agora Pensa partiu desta análise sobre o mundo para traçar um rumo contraditório à norma. Propusemos-nos a trazer à discussão na Universidade de Coimbra (UC) uma variedade de temas: desde os refugiados até à Palestina, passando pelos presos políticos e o regime angolano, feminismo, Governo Trump.

Alguns do membros do Agora Pensa solidarizam-se com a greve dos estudantes de Puerto Rico, contra o corte de financiamento do ensino e aumento das propinas. Fotografia retirada do facebook do Agora Pensa

Para além dos debates mensais procuramos também integrar outro tipo de acções, como as marchas de mulheres, as marchas LGBT, a luta contra a passagem da UC a fundação, a integração dos/as alunos/as do primeiro ano, numa tentativa de unir esforços e de ampliar a resistência. E muito embora as lutas dos/as estudantes estejam de momento resfriadas e que seja necessário pensar o activismo de outras formas, é útil e indispensável participar nas estruturas tradicionais e agir em unidade sempre que surjam lutas.

O Colectivo foi lançado por poucas pessoas, responsáveis pelas primeiras actividades — fomos crescendo à medida que nos tornámos conhecidos entre os/as estudantes, conseguindo construir um núcleo duro de activistas. Inicialmente realizamos algumas reuniões abertas mas rapidamente percebemos que a forma mais fácil de captar mais membros era através do contacto directo durante os debates, onde referimos sempre que novos membros são sempre bem-vindos .

Em termos práticos, o colectivo organiza-se de forma horizontal, todas/os partilhamos as responsabilidades de propor temas, organizar os debates e iniciativas, bem como representar o nosso colectivo noutros espaços, como na Assembleia Feminista de Coimbra ou na Assembleia Anti Fundação. Reunimos com alguma regularidade, dependendo da quantidade de tarefas que temos em mãos e coordenamos-nos através de um grupo de Facebook, para facilitar a comunicação. Os fundos para realizar as nossas actividades vêm de nós próprios e também de recolhas que fazemos quando organizamos debates.

A nossa experiência mostra-nos que, embora haja uma certa letargia, normal e fruto das circunstâncias, os e as estudantes querem, precisam e procuram compreender o mundo e os fenómenos actuais, porque também sentem que a explicação de que tem que ser assim não basta. Há que ir mais além.

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