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O futuro existe agora | João Carlos Louçã

Num momento em que o tempo presente pode parecer insuportável, em que todas as crises parecem convergir para becos sem saída, em que a esperança andará por parte incerta, procurar vislumbres do futuro nas práticas que se afirmam nas margens do capitalismo, poderá ser, é definitivamente, tarefa urgente. Ainda que improváveis, ainda que distantes na abrangência e significado, são hipóteses que se podem vir a constituir enquanto tendências expressivas ou enquanto práticas de transformação social.

Com um pé na história de todos os processos de emancipação e com outro na possibilidade de mudar o mundo a partir dos escombros da globalização vigente e da sua enorme massa de excluídos, as raízes utópicas na sua capacidade para mobilizar alternativas, poderão ser o fio condutor que nos conduz ao encontro de quem pode bem estar já a viver fragmentos desse futuro. Futuro ou forma de sobreviver à realidade de hoje? Futuro ou projetos coletivos para ultrapassar as regras de chumbo dos mercados? Futuro ou a prática das utopias feita forma de viver e de construir mundos que correm paralelos aos da economia formal? Futuro ou a continuidade de formas comunitárias que persistem através dos tempos e que fazem lembrar que o individualismo, sustentáculo do neoliberalismo, não foi sempre dominante? Que não é ainda, em muitos casos, ou que deixou já de o ser.

Orwell ou Verne, Huxley ou H.G. Wells foram em grande medida ultrapassados pela realidade. Hoje nas ruas de Pequim ou de Estocolmo, a grande maioria das pessoas que bebem um café na Starbucks pagam o serviço através do seu telemóvel. Um máquina que faz um bip, lê o telemóvel e garante a facturação dos clientes do café. Mesmo em Portugal, ou noutros países periféricos, as compras e pagamentos através da net são cada vez mais frequentes. Transforma-se assim a relação social que garantiu o comércio e o fez florescer durante milénios. O rasto digital garante o lugar na sociedade, o espaço de produtor e sobretudo de consumidor, insere na comunidade mesmo que esta seja composta de indivíduos isolados na sua falsa privacidade. Bitcoins e criptomoedas substituem a materialidade do papel moeda através de redes/empresas quase sempre fora do controlo político e que actuam em vazios legais e neles consolidam o seu poder. Até esse poder ser capaz de garantir as leis que interessam, ou melhor ainda, a ausência de leis que lhes limitam o negócio.

E, ao mesmo tempo, há um mundo que resiste ainda. “Retrotupia” diria Baumaun, no seu último texto. Mas enganou-se, provavelmente. O passado e as formas de vida solidárias e livres das relações capitalistas não serão nunca olhares saudosistas sobre um tempo que se esvai sem remédio. A história ensina-nos sempre quem somos, para onde vamos e as possibilidades abertas para o futuro. A história da ocupação humana no planeta garante-nos que não há futuro na depredação capitalista, que a economia financeirizada mesmo que seja renovada constantemente com instrumentos hi-tech, conduz-nos inevitavelmente ao abismo da barbárie. A pobreza aumenta sempre, mesmo que a riqueza também. E essa barbárie está à vista. Bem visível na Europa e no cemitério em que se tornou o Mediterrâneo, nos fascismos reciclados que ganham respeitabilidade eleitoral, nas direitas clássicas que se aproximam dos fascismos nas propostas e métodos, na erosão da esquerda que sempre que quer ser respeitável e se põe em bicos de pés para gerir o neoliberalismo, fica igual à direita, na União Europeia que mesmo sendo um negócio para os seus ricos, parece ser a última barricada contra o conservadorismo. No tempo de Trump e no de Orbán, no de Putin e no da família de ZéDu dos Santos, no aquecimento global e no esquecimento organizado que garante que os modelos autoritários de hoje são os mesmos que o capitalismo usou nos anos 20 e 30 na Europa do pré-guerra, temos exemplos mais que suficientes para duvidar do futuro.

Mural da autoria de Banksy

Dramática e comovente, a insurreição de Paris em 1871, inaugurou um tempo em que os de baixo tiveram a ousadia para desafiar os poderes imperiais e de classe. Reza a história que uma das primeiras decisões do poder comunal dos cidadãos de Paris, terá sido a destruição pública da guilhotina. Máquina de morte e símbolo de um regime opressor, podemos imaginar a festa e a alegria de quem comemorava a utopia de uma cidade sem muros nem ameias (diria o Zeca Afonso), da vida dos homens e da mulheres que nenhum Estado poderia decidir terminar. Utopia breve, a Comuna de Paris, na ingenuidade que Marx lhe assinalou, marcou o que viria a seguir, serviu de exemplo e deixou sementes para os vários futuros possíveis.

Georg Lukacs, filósofo heterodoxo que foi comissário da educação no breve governo da República dos Conselhos na Hungria, em 1919, teve ainda tempo para instituir a leitura obrigatória dos contos de fadas nos hospitais infantis. Sinal utópico de uma revolução sitiada mas que procurava as armas da esperança na imaginação infantil. Hipótese improvável de poder desenvolver outra sociedade, outro paradigma de educação, tempos novos que pudessem ultrapassar a insuportável Europa mergulhada na Grande Guerra e na massa de explorados de um capitalismo que se consolidava no saque e sangue das populações.

Os exemplos poderiam suceder-se, ilustrando a parte mais luminosa dos processos revolucionários e da sua capacidade de fazer vislumbrar o que poderiam ter sido, transportando consigo a esperança de dias diferentes, afirmando uma prática política de raízes utópicas e fundada na igualdade entre os seres humanos.

Na universalidade da tradição revolucionária, o projeto emancipador para a modernidade é aquele que contraria tudo o que separa a humanidade. Marina Garcês, professora de filosofia em Zaragoza, e ativista do “Espai en Blanc”, enumera alguns desses fossos: “a história, a religião, comunidades de nascimento, o medo, o modo de produção capitalista que nos separa de nós mesmos”. Alertando para os perigos de escapismo utópico nesta práticas a que chama de confim, reconhece-lhes a capacidade de contágio interferindo no sistema a partir das suas margens e de uma inquestionável capacidade utópica.

Mural da autoria de Charles Laval nas ruas de Paris

Ernest Bloch, filósofo incontornável nesta demanda, que deu à esperança um lugar cimeiro nas categorias do pensamento humano, que procurou na música todos os sinais para as brechas de otimismo que no seu tempo, e hoje também, se tornaram essenciais, teria olhado com interesse para as praças ocupadas pelas multidões que nos últimos anos desafiaram as ditaduras da realidade compressora do capitalismo tardio em que vivemos. Teria apreciado as hortas comunitárias que proliferam, as orquestras e projetos culturais, as feiras de trocas e as moedas que se inventam para desenvolver economias locais, as experiências de vida em comum que resistem à hegemonia do individualismo e da solidão, as lutas sectoriais que transportam consigo a força de uma classe para si e que nos fazem acreditar que a pluralidade do mundo possa ser a sua força transformadora. Essa praxis da utopia concreta que devolve o princípio da esperança.

Cinco séculos após a edição do livro de Thomas More que cunhou o termo, a utopia tornou-se designação comum para interpretar e sobretudo desejar, futuros em rebeldia com a fatalidade neoliberal, insubmissão com a ideia do fim da história e de que o capitalismo é o caminho inexorável da humanidade. Nas artes mais do que nas ciências sociais, as utopias são reapropriadas, e assumidas como espaço de todos os possíveis, mesmo o das distopias que marcam os perigos do totalitarismo. Estas eram a preocupação fundamental de Norbert Elias, nas últimas conferências que realizou, no início dos anos 80 do século passado, quando a globalização ainda podia transportar consigo a esperança de um sistema mundial mais justo. Esperança que parece ter-se distanciado de todos os processos a que hoje chamamos globalização, mas que tem a enorme capacidade de permanecer na adversidade através de projetos de futuro. Edward Said refletindo sobre as derrotas, deixou-nos a convicção de que as ideias sobrevivem às realidades opressoras. Palavras magníficas onde a esperança encontra abrigo nos momentos de desespero e na continuidade da inteligência e engenho dos homens e mulheres que fazem o mundo na sua totalidade inesgotável.

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