Artigos Uncategorized

QSLT: foi lindo e podia ter mudado tudo | Isabel Louçã

Falar do Que Se Lixe a Troika é falar também com a emoção. Porque foram tempos de discussão — tantas vezes mais acesa e tantas outras mais morna do que a maturidade política aconselhava -, de entrega plena de esperança. Foram noites não dormidas, cumplicidades nascidas na conceção e execução de ações que nos punham o coração a galope. Mas também desilusões inesperadas.

Mas essa não é a parte interessante da questão. Essa será, para xs românticxs, a história que será contada a netxs, não a história donde se tiram as lições que farão novas histórias.

Sem nunca ter sabido definir-se — recordo as discussões intermináveis sobre a sua natureza e o humor com que a elas sobrevivíamos acabando sempre por nos autodenominarmos como o “ovni”, à falta de melhor e mais consensual definição -, o QSLT foi o coletivo de sigla feliz que juntou na rua, por 2 vezes, mais de um milhão de descontentes com a governação.

Vivíamos anos de aflição: todos os dias sabíamos de mais alguém próximo que emigrara. Todos os dias sabíamos do desespero de mais alguém que perdera a casa para o banco. Todos os dias sentíamos a humilhação de quem, trabalhando, não conseguia sobreviver com o mínimo de dignidade ou de quem, perdendo o emprego, regressava com a família a casa dos pais onde tentavam todos viver com pensões difíceis mesmo para dois.

Pela tv e pelos jornais chegavam-nos os delírios de governantes (PSD-CDS) que pareciam não conhecer o país e as ameaças dos governantes dos governantes (Troika).

Em março de 2011, uma convocatória inédita aparece nas redes sociais: quatro jovens universitárixs, glosando um epíteto [1] que ficou dos tempos da luta contra as propinas universitárias e os exames no secundário durante o cavaquismo, apela a que se façam ouvir na rua as razões dos protestos que vão nas bocas de toda a gente. E, sob o lema “Geração à Rasca”, as ruas de Lisboa são inundadas por velhxs e novxs, cada um/a trazendo de casa o seu cartaz. Noutras cidades do país, à escala de cada uma, o mesmo se passa.

“A revolução está a passar por aqui”, dizia-me uma amiga ao telefone. Não havia faixas nem serviço de ordem sindicais, não havia bandeiras partidárias. Só gente, muita gente. Gritavam o que lhes apetecia, coisas já antes ouvidas e outras nunca antes ditas. E muita, mas muita gente, dera-se ao trabalho de escrever algo numa cartolina ou numa folha de papel, maior ou menor. É dessa revolução que ela me fala comovida, a que traz tanta, mas tanta, gente para a rua que nunca aí gritou e tanta outra que nunca aí foi sem ser em resposta a convocatórias de partidos ou sindicatos.

Imagem de transmissão da RTP

Com o tamanho da manifestação, espantou-se a proto-organização. Espantaram-se xs manifestantes. Espantou-se a comunicação social. E os partidos e os sindicatos. Tudo era novidade. Era nova a descentralização em modo “organiza na tua cidade”. Era nova a ausência de protocolo quanto às palavras de ordem e a tudo na manifestação. Era nova a participação de cada um/a com os seus gritos estampados nos cartazes ou nas t-shirts. Era nova a mistura de gentes tão diferentes. Era toda uma nova ocupação da rua.

Ano e meio mais tarde, “Que Se Lixe a Troika: Queremos as Nossas Vidas” foi o apelo para a primeira manifestação organizada pelo coletivo QSLT, criado em junho mas ainda desconhecido fora dos meios mais politizados. Com mais recursos — humanos e de experiência, já que este grupo [2] era composto por ativistas com prática militante, mais ou menos partidária ou mesmo nada partidária, prática sindical ou nem por isso, mas prática militante — do que o grupo da Geração à Rasca, o QSLT aparece reivindicando a demissão do governo e convidando, através das redes sociais, à ocupação das ruas da capital no dia 15 de setembro de 2012. Rapidamente, da capital se estende o apelo a outras cidades.

Mas xs ativistas do QSLT, ao contrário dxs organizadorxs da manifestação da Geração à Rasca, tinham uma preocupação: afirmar claramente que a luta contra a austeridade é uma luta política. Enquanto aquelxs tinham alardeado o caráter apolítico da ocupação da rua em março, estxs, sublinhando o modo apartidário do grupo, negam a faceta apolítica das respostas necessárias. Não é clarificação suficiente para evitar que skins e fascistas afins participem, mas deixa a extrema direita desconfortável para ocupar a rua ao lado de gente que grita contra a Troika, a austeridade, mas também pela demissão do governo [3].

Em Lisboa, 500 mil pessoas encheram todo o percurso da manifestação, não cabendo na Praça de Espanha, onde a carrinha do som debitava palavras impossíveis de se fazer ouvir por uma instalação sonora que não previra mais do que alguns escassos milhares de manifestantes. Mais de um milhão de pessoas se juntariam em todo o país [4]. Pela primeira vez. Não seria a última.

Logo ali, foi anunciada uma concentração para uma semana depois (21 setembro), em Belém. Uma euforia transbordando esperança levou ao risco da convocatória a uma distância só possível de cobrir com uma comunicação que os jornais e as televisões não nos emprestavam. Mesmo assim, vários milhares pediram a demissão do governo durante horas, enquanto decorria o Conselho de Estado. O tom já não era só de espanto e contentamento. Várias pessoas foram detidas pelo arremesso de petardos. O micro providenciado pelos Precários Inflexíveis foi várias vezes ocupado por arremedos nacionalistas entoando o hino. Por alguns momentos, ouviram-se palavras de ordem homofóbicas, muito queridas dxs militantes de extrema direita que connosco conviviam — com algum arrojo — naquele espaço onde as esperanças maiores se situavam todas à esquerda.

Três semanas depois (13 outubro), a Praça de Espanha, em Lisboa, foi palco do mega concerto “Cultura contra a Troika”. A ideia, nascida um mês antes, não precisou de muito para juntar artistas que, durante muitas horas, tocaram e cantaram a sua mensagem às políticas da Troika: que se lixem! A Praça de Espanha encheu-se, mais uma vez, com milhares de famílias que entenderam haver razões para trocar de programa domingueiro. Muitas destas pessoas nunca tinham estado numa manifestação política e, no espaço de poucas semanas, fizeram parte de várias.

E, de repente, julgávamos que saltara a tampa a um país inteiro que não mais calaria a indignação. Julgávamos que a revolta tinha ganho um espaço que não mais se esvaziaria. Por isso, não entendemos os poucos milhares que gritam “A Merkel não manda aqui”, aquando da sua visita a Portugal, em 12 de novembro.

O final de 2012 e início de 2013 foram meses de intensa discussão dentro do QSLT. Enquanto se pensava a continuação da mobilização, perdíamo-nos em emendas, cortes e acrescentos aos textos a publicar, na busca de um consenso absoluto que, de tão absoluto, foi sempre artificial.

As intenções dxs ativistas do QSLT convergiam em pouco mais do que a demissão do governo e o fim da austeridade. E sobravam esperanças e vontades. De comissárixs políticxs partidárixs. De ativistas comprometidxs primeiramente com a intervenção social, a maior parte delxs não organizadxs em nenhum partido ainda que fieis ao voto na esquerda. De jovens e menos jovens há muito empenhadxs em lutas várias e de outrxs que, pela primeira vez, pensavam alternativas de forma coletiva. Dxs que acreditavam piamente na possibilidade da sinceridade da discussão e horizontalidade das decisões e dxs que, embora sabendo das vantagens da participação, faziam depender a eficácia das decisões da qualidade dxs decisores e, portanto, não se perdiam em propostas nem intenções igualitárias que consideravam de uma ingenuidade perigosa. E, até, de gente presa a agendas políticas pessoais. Chocavam modelos de organização que, antes de mais por não serem explícitos, eram de impossível conciliação. Eram as contradições inevitáveis resultantes de entendimentos de intervenção social diferente: por um lado, quem queria construir ali um espaço de discussão e de decisão coletiva que contribuísse para a consciencialização e mobilização social; por outro, quem queria fazer ali um espaço fértil no reforço de mobilizações e reivindicações decididas em outras estruturas e organizações. Apesar de todxs quererem a demissão do governo e o fim da austeridade, o esforço despendido nessa luta era quase tão grande como o investido no controlo da luta ou no combate ao controlo da luta.

Para uns/umas, a questão era “como criar um movimento crescente de mobilização? Como criar consciência política e necessidade de participação?”. Para outros/as, a questão era “como aproveitar a mobilização, fazendo-a crescer na direção ‘certa’? Como criar consciência política e necessidade de participação, sem perder o controlo nem das reivindicações, nem da própria mobilização?” Entre xs mais politizadxs as tensões cresciam e, sem nunca ser formulada, uma preocupação dominava as discussões: a intervenção dos partidos no QSLT — e nos movimentos sociais, em geral — e a tentativa de o dirigir.

Quando o QSLT se decide por nova manifestação, para 2 de março (“Que se lixe a troika: O povo é quem mais ordena”), esbarra com um muro de silêncio da comunicação social. O facebook é o único sítio onde a convocatória passa. O desinteresse dos jornais e das televisões revela intenções envergonhadas mas eficazes no boicote à divulgação da ação.

…e tornou-se arma poderosa quando usada sem controlo

É neste contexto que se tenta algo cujo resultado não podíamos prever: no dia 15 de fevereiro de 2013, durante o debate com o governo, um grupo de ativistas do QSLT interrompe o primeiro ministro cantando a Grândola, de Zeca Afonso. Sabíamos que daria em direto na televisão. Cá fora, apenas uma declaração curta onde se apela à manifestação do próximo dia 2 de março.

Da comoção que foi ouvir um dos polícias que procedeu à nossa evacuação das galerias dizer, em voz baixa e embargada “obrigado, obrigado”, da comoção que foi cantar a senha da revolução no hemiciclo obrigando o primeiro ministro, Pedro Passos Coelho, a calar-se, da comoção que foi perceber a histeria da Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, da comoção que foi ouvir a “Grândola” ecoar pelos corredores enquanto saíamos… de toda esta comoção se contará a quem não esteve presente e gostaria de ter estado e também a netxs.

Para aqui, o que interessa é que esta ‘grandolada’ foi replicada, durante meses, sempre que um/a governante aparecia em público. O que interessa é o efeito que teve ao tornar-se uma poderosa arma de afirmação do protesto. O governo passou a esconder a sua agenda. Xs jornalistas viam-se doidxs para planear diretos. A toda a hora circulavam mensagens e se juntavam dezenas de ‘cantores’. O governo fugia do enxovalho constante. Era perseguido por uma cantiga que todxs conhecem e ninguém consegue ignorar. A convocatória da manifestação tornou-se conhecida mas, sobretudo, de norte a sul, onde quer que aparecesse e durante muitos meses, o governo era recebido não com um protesto qualquer, mas com o símbolo da liberdade (e da libertação) e, também do ponto de vista simbólico foi uma cena fortíssima, pois a toda a hora passavam imagens nas televisões desta nova utilização de “a” senha. Impossível não sonhar com o que aí viria, desta vez.

O povo é quem mais ordena. E depois?

A 2 de março de 2013 — sob o lema “Que se lixe a troika: O povo é quem mais ordena” — mais de um milhão de pessoas vem novamente para a rua. Em dezenas de cidades portuguesas, mas também no estrangeiro onde todos os dias chegavam mais portuguesxs.

Cartaz do QSLT para a manifestação de 2 de Março

Lisboa nunca tinha visto uma manifestação desta dimensão. Mas, desta vez, impressionou não apenas pelo tamanho — o maior de sempre — mas, sobretudo, pelos rostos cerrados das pessoas. A indignação e a revolta liam-se nos cartazes, mas a tristeza e a falta de esperança estavam escritas nas caras e nos olhares.

Em Lisboa, acabou no Terreiro do Paço. Às 18h, ativistas do QSLT subiram ao palco e, enquanto à mesma hora nas outras cidades se fazia o mesmo, foi lida uma moção de censura popular [5] e cantada a Grândola. Em baixo, a maior praça do país cheia. Algumas lágrimas misturavam-se com a senha revolucionária. E muitos, muitos, punhos no ar. Ainda algumas dezenas de milhar de manifestantes não tinham chegado à praça e já tudo acabara.

Em Lisboa, acabou mesmo antes de ter acabado. Como se não houvesse outro caminho possível — regressar a casa, mesmo que ainda soassem gritos na rua — e nos restasse apenas a nostalgia de um sonho que nos trouxera ali.

A partir desta altura, o QSLT foi muito (justamente) criticado por ativistas (dentro e fora do coletivo) que não se conformavam com a organização de momentos de protesto sem apontarem nenhuma possibilidade de continuação, como se a mobilização fosse uma ação ritualizada de espaço e tempo limitados e a única perspetiva fosse da expressão da revolta como alívio para regressar a casa com a força necessária para aguentar tudo.

Que fazer com as pessoas que, aos apelos do QSLT, vinham para a rua como nunca antes o tinham feito? Como acabar as manifestações? Que seguimento dar aos protestos? Como chegar à queda do governo e ao fim da austeridade? Estas eram questões que rachavam o coletivo.

Como se verá, o QSLT não teve a capacidade de organizar a vaga de gente que para tanto estava disponível e não foi muito além de um grupo de organização de eventos.

Coexistências difíceis tipo geringonças

Entretanto, as táticas partidárias ditavam manobras mais descaradas do que o habitual e aprofundavam fraturas: por exemplo, numa assembleia aberta para decidir ações e formas de luta, grande parte dxs participantes, sendo militantes partidários, nunca antes tinham posto os pés numa reunião do QSLT. Não vinham discutir, vinham influenciar decisões, votar.

Internamente, a desconfiança ganha lugar, como sempre acontece quando a democracia diminui. Por um lado, as práticas promotoras de condições igualitárias de participação na discussão e decisão são apenas uma lembrança enquanto se fazem reuniões de petits comités clandestinos onde se congeminam manipulações. Por outro, companheirxs verdadeiramente comprometidxs com a luta de classes não conseguiam admitir que um coletivo fechado, onde só se participava por convite, apesar de ter organizado momentos de protesto que ultrapassaram em muito a capacidade de mobilização partidária e sindical, nunca podia ser um movimento de massas. Entre outras razões, porque a comunicação por si só não cultiva consciências, nem a participação e a decisão se fazem sem democracia.

Externamente, seguiu-se um período onde se multiplicaram as pequenas ações, à procura de alguma que tivesse o efeito replicador das grandoladas. Talvez a relação de forças, dentro do QSLT, ainda fosse favorável a quem pensava a mobilização sem donos…

Das grandes às pequenas ações

A 16 de abril (2013), a propósito de uma visita da Troika a Portugal, juntam-se centenas de pessoas frente ao hotel onde está instalada, numa ação relâmpago convocada com poucas horas de antecedência. Porque envolveu polícia e até uma detenção, ainda teve alguma cobertura mediática.

O mesmo já não aconteceu com outras ações como, por exemplo, “Se estás a ser roubado apita” (faixas em vários pontos de Lisboa, onde o trânsito era mais intenso); ou o stencil “Vendido à Troika”, com o logo de uma agência imobiliária, que carimbou escolas, estações de metro, estações de correio e outras instituições públicas; ou “A Troika mata” (suspensão em diversos semáforos da cidade de “enforcados” (bonecos em tamanho real) com o letreiro ‘Troikado’, apesar do caos causado no trânsito quando, de manhã, só os bombeiros os conseguiram retirar; ou a semana de microfone aberto que, todas as tardes, tinha um tema diferente (cultura, saúde, educação, etc).

Entretanto, desobediências alheias vão soprando esperanças: a CGTP que anuncia uma marcha na ponte 25 de abril e começa um braço de ferro nunca antes visto com o governo [6] e um grupo de 250 pessoas que, no final de uma manifestação, segue caminho e é parado (e detido) pela polícia à entrada da autoestrada na saída de Lisboa.

No dia 1 de junho de 2013, associando-se à mobilização internacional “Povos contra a Troika”, o QSLT promove uma das suas últimas manifestações. Mais uma vez, o percurso (traçado e ações a acontecerem durante) e o final são objeto de grandes discussões internas. Ganha a versão da organização sem percalços. E juntam-se 2 ou 3 milhares, tanto por convicção como por obrigação.

Quando Paulo Portas, líder do CDS-PP, anuncia a sua demissão (2 de julho de 2013), juntam-se no Marquês de Pombal, em Lisboa, centenas de pessoas. “Obviamente, estão demitidos” [7], lia-se numa faixa gigante que encabeçara a manifestação de junho. Carros que passam solidarizam-se com o protesto, apitam. São multados, que o governo não está disposto a deixar acontecer protestos sem castigo.

5 de outubro [8]: “Que se lixe a troika: O povo contra-ataca” concentrou poucas centenas de pessoas cantando a Grândola na Praça do Município enquanto, nos Paços do Concelho, decorriam à porta fechada as comemorações oficiais da República. Enquanto não fecharam as janelas, a música entrou em direto nas televisões que captavam imagem com som. Um ativista foi detido por agentes à paisana.

Endurece a austeridade e cada vez é mais evidente a falta de independência da comunicação social, que obedece sem pudor à voz do dono. Não conseguindo fazer passar em nenhum órgão de comunicação o anúncio de nova manifestação contra a austeridade (26 de outubro, “Que se Lixe a Troika: Não há becos sem saída”), o QSLT cria personagens fictícias que convocam uma manifestação com conferência de imprensa de apoio à Troika. No dia, caem lá jornalistas como moscas no mel. São profissionais enganadxs com muita criatividade que lá têm de dar a notícia do “apoio” que afinal era um veemente “que se lixe” e uma convocatória para a manifestação seguinte.
A 26 de outubro, a manifestação acaba com um concerto em S. Bento. Com a música se atraem mais pessoas e com o palco se evita a subida das escadarias da Assembleia da República.

Várias vezes, o QSLT discute opções muito fora da caixa. Mas a radicalização da luta é um risco que não sabe assumir e fica-se pelas discussões de como fazer ocupações que nunca chegam a acontecer, de como desobedecer em situações que se evita acontecerem, etc, etc. E acaba por ser natural a negociação com a presidente da AR que leva não só à não subida das escadas [9] mas, sobretudo, à garantia de que tal não aconteceria.

Até não se poder negar

2014 foi um ano singular na vida do QSLT. Por um lado, participou na organização dos “Rios ao Carmo” com cortejo próprio [10] (“Que se Lixe a Troika: Podes ser a gota de água”). Por outro, discutia a formalização do seu fim.

Naquela que foi a sua última ação, o QSLT participou com dezenas de organizações/grupos — políticas, culturais, grandes, pequenas, conhecidas ou não, …. — o que foi um fim melhor do que o que discutia em corredores e assembleias.

Enquanto participámos na preparação de uma ação que nos devolvia um bocadinho de esperança na expressão do nosso sentir — porque algum sectarismo tinha sido esquecido, porque nos propúnhamos ocupar a rua sem pedir licença, porque nasciam rios com cursos a definir pelas suas águas convergentes a acabar todos no local e na madrugada em que tudo começou, porque estávamos juntxs e juntxs pensávamos respostas à repressão — , fizemo-lo sempre em aberto conflito com o coletivo. Em causa estava aquilo que, para as que por lá andámos, nos fazia sentido neste tempo: a desobediência assumida, a não comunicação dos percursos à Câmara, a definição de estratégias de defesa em caso de conflito com a polícia. A oposição que tivemos de vencer no coletivo era já um sinal inequívoco que não tínhamos de nos preocupar com o seu futuro: o QSLT já era.

Ao mesmo tempo, em vez de gastar energias no que estava a acontecer, as assembleias do QSLT discutiam a possibilidade da formalização do seu fim. Acabar com uma ação no dia de reflexão das eleições para o parlamento europeu, de forma a termos um último momento de visibilidade ao provocar uma carga policial e ser detidxs pela polícia, ou manter o coletivo em coma esperando oportunidades de ressurreição duvidosas, foram hipóteses só possíveis no meio do desespero de quem já sabia o movimento morto mas ainda se lhe apegava, ou de quem já não tinha qualquer esperança na utilização do coletivo para fins (que considerava) maiores, ligados a agendas que pouco tinham a ver com o momento político, a luta social e a resposta necessária.

Pode-se sempre

Podíamos sempre ter feito melhor, muito melhor. Porque se pode sempre. É assim mesmo. Mas é imperdoável se não aprendermos com todo este processo, com as suas virtudes e vicissitudes. Aprender para fazer melhor mais tarde ou, no mínimo, não repetir os erros. Fazer outros, mas não os mesmos.

Por mim — radical romântica que recusa abdicar das utopias que nos dão razões para a prática, para a militância, para o ativismo -, aprendi que a coexistência de independentes e correntes políticas pode não somar nem um pingo à consciencialização política. E que a intervenção dos partidos nos movimentos sociais pode ser vital se se verificar disponibilizando a sua força, presença institucional e meios técnicos. Que a intervenção dxs ativistas que se reconhecem em partidos de esquerda se deve traduzir numa militância generosa e construtiva, ao invés de investir no seu controlo. Que um partido de esquerda deve ter a preocupação de criar movimentos onde a capacidade de participação e decisão seja completa e autónomo. Que o transplante de estruturas com direções mais ou menos formais dos partidos para os movimentos sociais é mortal.


[1] Na década de 90, o movimento estudantil contra as medidas da ministra da educação Manuela Ferreira Leite (mais tarde, ministra das Finanças do PSD) foi fortemente reprimido e apelidado de “geração rasca”. (Geração rasca = geração ordinária; Viver à rasca = viver com dificuldades)

[2] Donde só se fazia parte por convite de algum dos membros promotores.

[3] Na manifestação da Geração à Rasca, um grupo de skinheads tentara disputar a cabeça da manifestação.

[4] Uma semana antes, o primeiro ministro Passos Coelho deu uma ajuda preciosa à mobilização com uma medida que beneficiava os patrões e penalizava os trabalhadores, a descida da TSU (imposto relativo à segurança social). O anúncio despudorado de tal medida fez explodir uma onda de indignação que se refletiu nas ruas, a 15 de setembro.

[5] “Esta Moção de Censura Popular expressa a vontade de um povo que quer tomar o presente e o futuro nas suas mãos. Em democracia, o povo é quem mais ordena. Os diferentes governos da troika não nos representam. Este governo não nos representa. Este governo é ilegítimo. Foi eleito com base em promessas que não cumpriu. Prometeu que não subiria os impostos, mas aumentou-os até níveis insuportáveis. Garantiu que não extorquiria as pensões nem cortaria os subsídios de quem trabalha, mas não há dia em que não roube mais dinheiro aos trabalhadores e reformados. Jurou que não despediria funcionários públicos nem aumentaria o desemprego, mas a cada hora que passa há mais gente sem trabalho. Esta Moção de Censura é a expressão do isolamento do governo. Pode cozinhar leis e cortes com a banca e a sua maioria parlamentar. O Presidente da República até pode aprovar tudo, mesmo o que subverte a Constituição que jurou fazer cumprir. Mas este governo já não tem legitimidade. Tem contra si a população, que exige, como ponto de partida, a demissão do governo, o fim da austeridade e do domínio da troika sobre o povo, que é soberano. Que o povo tome a palavra! Porque o governo não pode e não consegue demitir o povo, mas o povo pode e consegue demitir o governo. Não há governo que sobreviva à oposição da população. Esta Moção de Censura Popular é o grito de um povo que exige participar. É a afirmação pública de uma crescente vontade do povo para tomar nas suas mãos a condução do país, derrubando um poder corrupto que se arrasta ao longo de vários governos. No dia 2 de Março, por todo o país e em diversas cidades pelo mundo fora, sob o lema “Que se lixe a troika! O povo é quem mais ordena”, o povo manifestou uma clara vontade de ruptura com as políticas impostas pela troika e levadas a cabo por este governo. Basta! Obviamente, estão demitidos. Que o povo ordene!”


[6] Braço de ferro em tudo favorável à central sindical que, no último momento, cedeu cobrindo de desilusão quem nela vira a esperança da velha central adequar as lutas aos tempos e, ao mesmo tempo, sossegando quem nela vira o perigo do abandono da ritualização dos protestos.

[7] Frase dita por Humberto Delgado, referindo ao ditador Salazar, durante a campanha para as eleições de 1958.

[8] 5 de outubro de 1910 — implantação da República em Portugal. Um dos feriados abolidos pelo governo.

[9] A subida das escadas da AR passou a ser um sinal de desobediência, e palco de confrontos de alguma violência entre manifestantes e polícia de intervenção.

[10] Na noite de 24 para 25 de abril, partiram de vários pontos da cidade vários rios que desaguaram no Largo do Carmo (local do quartel onde, em Lisboa, se rendeu Marcelo Caetano), em comemoração da revolução de 1974. Foi um ação da iniciativa de ativistas independentes de partidos políticos e que se quis alternativa às comemorações oficiais do 25 de abril. De vários pontos da cidade partiam manifestações organizadas por coletivos (mais ou menos formais) que se reuniriam frente ao quartel do Largo do Carmo, onde seria cantada a Grândola às 0h20’, hora a que passou na rádio na madrugada do 25 de abril.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s