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Sobre O Jovem Karl Marx, de Raoul Peck | Abel Lopes

No dia 20 de Abril foi a estreia portuguesa do filme O Jovem Karl Marx, de Raoul Peck, uma co-produção francesa, alemã e belga que acompanha os jovens Karl Marx, Jenny von Westphalen, Friedrich Engels e Mary Burns entre 1843 e 1848, o ano da publicação d’O Manifesto do Partido Comunista.

Leon Trotsky chamou certa vez ao cinema “esta arma que implora por ser utilizada” e acrescentou ainda ser “o melhor instrumento para a propaganda”. Hoje, quando tantos novos instrumentos foram já inventados, alguns hesitariam antes de chamar ao cinema “o melhor”, mas, quanto a nós, a afirmação permanece justa. A classe trabalhadora de todos os países nunca consumiu tantos filmes como hoje. Ao contrário da imprensa escrita, o cinema não foi enfraquecido pela invenção da televisão ou da Internet. Pelo contrário, circula a uma velocidade incomensuravelmente superior especialmente através da Internet, onde o donwload ilegal o tornou praticamente gratuito. Não é, portanto, de somenos importância que um filme sobre Karl Marx, um nome tantas vezes declarado morto, tenha sido produzido em 2016.

De facto, a importância política do projecto — a vida que têm as ideias de Marx e Engels — revelou-se claramente antes mesmo da sua concretização. O filme demorou uma década a materializar-se, em parte devido às dificuldades que Peck e a sua equipa encontraram para conseguir o financiamento. A ideia de produzir um filme sobre os pais do socialismo científico teve os expectáveis detractores, e Nicolas Blanc, um dos produtores do filme, revelou numa entrevista que por várias vezes lhes foi apresentada uma condição para receber financiamento: mencionar Stalin. O objectivo, claro, seria impedir que as ideias do marxismo fossem apresentadas a uma nova geração de trabalhadores num formato acessível e sem a mácula do estalinismo.

Qualquer avaliação deste filme, portanto, deve ter em conta os obstáculos e as limitações que o capital colocou à sua produção, a começar pelo subfinanciamento. Mesmo agora, quando O Jovem Karl Marx já está nos cinemas, continua a ser atacado por críticas indiscretamente desonestas. Quanto a nós, o filme cumpriu todos os seus objectivos, tanto artísticos como políticos.

O guião de Raoul Peck e Pascal Bonitzer — que já colaborara com Peck num outro filme biográfico, Lumumba — consegue reduzir ao estritamente essencial a contradição entre a dupla de Marx e Engels e os principais pensadores socialistas da sua época. O filme foi construído de tal forma que mesmo quem nunca teve qualquer contacto com o marxismo pode entender o essencial das discussões. Isto é importante especialmente se notarmos que bem mais de metade dos seus 118 minutos são dedicados a discussões. Marx discute com Proudhon, Marx discute com Engels, Engels discute com o seu pai, Marx e Engels discutem com Weitling, grita-se, todo um congresso fervilha, escreve-se um manifesto… Mas a qualidade técnica de Peck consegue manter os debates não só cativantes como cristalinamente compreensíveis. Quando o irascível Marx lança finalmente as suas mais duras acusações contra os representantes da Liga dos Justos, já houve a oportunidade de chegar a essas mesmas conclusões a partir das cenas anteriores. Muito naturalmente, o espectador franze o sobrolho juntamente com Marx, o espectador acompanha Marx.

Fotografia de uma cena de “O Jovem Karl Marx”

Não obstante esta clareza, aqueles que esperam deste filme um tratado sobre dialéctica ou uma exposição da teoria marxista do valor-trabalho (algo que, em todo o caso Marx ainda não tinha concluído em 1848), sairão merecidamente desapontados da sala. Para os mais conhecedores dos textos e personalidades socialistas da época, Peck e Bonitzer espalharam pequenas referências ao longo do filme. Várias frases dos Marx e Engels de Peck são citações directas das suas obras ou correspondência, algumas incorporadas no texto de uma forma que será humorística para quem as conhecer de antemão.

Sem dúvida que os cinco anos que vão desde o exílio de Marx em Paris até à impressão do Manifesto do Partido Comunista são de uma riqueza teórica tremenda. Foi nestes anos que nasceu o materialismo dialéctico, o método de análise social que ofuscou completamente as restantes correntes socialistas e, para desalento de muitos, marcou a aurora da ciência social — mesmo a sociologia burguesa é erigida em oposição ao marxismo e depende dele como referência desde o período da sua fundação institucional até aos dias correntes. A partir das ideias que nasceram durante a meia década coberta pel’O Jovem Karl Marx, foi possível construir o primeiro partido operário de massas, o Partido Social-Democrata da Alemanha, e dirigir a primeira revolução proletária a nível nacional, a Revolução Russa de 1917. Estas ideias fizeram-se sentir durante todo o século XX e ameaçam dominar igualmente o nosso século. O Jovem Karl Karx, apesar do tempo gasto com cenas da vida familiar, com a pobreza da família Marx, com a relação problemática entre os Engels pai e filho, enfim, com variados aspectos da existência carnal e histórica das personagens, não diminui a importância das ideias que trata. Mas o filme é permeado por uma preocupação evidente: ser acessível a uma vasta audiência. E se não comete nenhum pecado teórico, não é contudo na teoria que O Jovem Karl Marx brilha.

A título de exemplo, a diferença entre materialismo e idealismo nunca é explicada, é antes comunicada numa versão forçosamente simplificada pelo contraste entre as palavras dos materialistas e as palavras dos socialistas utópicos, como os próprios Marx e Engels os apelidaram ao se declararem socialistas científicos. Na cena mais importante para este fim, Karl é apresentado a discursar perante uma sala cheia de operários sobre o salário, o lucro e a material contradição de interesses entre trabalhadores e patrões. Terminado o seu discurso, desce do palco e dá a palavra a Weitling, um dos socialistas mais célebres da época, que discursa tal como um qualquer pregador religioso, gritando chavões sobre harmonia e paz sob o olhar reprovador do trio de materialistas que se reuniu ao fundo da sala — Friedrich, Karl e a sua mulher Jenny.

O que O Jovem Karl Marx faz de mais relevante, portanto, não é expor o materialismo dialéctico em menos de duas horas — algo que, de resto, estaria votado ao fracasso e à redundância — , mas sim resgatar Marx da fantasia que a academia produziu sobre o revolucionário e apresentá-lo à juventude com precisão histórica e destreza artística, num formato cativante.

Ao longo do filme, Peck mostra Marx não como um autor de papers e livros fechado em bibliotecas e salas de aula, mas como agitador e propagandista, como um impiedoso polemista, um organizador e militante do vivo movimento operário. Os livros e artigos, que são zelosamente mencionados, surgem aos olhos do espectador como inseparáveis da luta pela transformação do mundo. A diferença abismal entre o Marx higienizado das universidades e o Marx tal como ele é apresentado por Peck salta à vista de todos. Aqui está um dos maiores méritos do filme, dissipar as mistificações professorais sobre Marx. Mas outros méritos são ainda dignos de especial menção.

Raoul Peck

Raoul Peck — um homem Nascido no Haiti, criado na República Democrática do Congo (à data Zaire) e tendo estudado na Alemanha e nos EUA — entrou em contacto com vários aspectos da exploração capitalista e passou por vários trabalhos antes de se tornar realizador. Tratamos, portanto, de alguém que conhece por bem a posição dos migrantes, dos sans papiers. Esta sensibilidade reflecte-se em O Jovem Karl Marx. Numa cena que poderá parecer uma simples tentativa de comédia aos mais distraídos, Marx e Engels encontram a polícia nas ruas de Paris e, prevendo problemas com os documentos e passaportes, iniciam uma fuga por becos e ruelas. A cena funciona como um intervalo entre discussões e um momento divertido, mas funciona acima de tudo como uma forma de estabelecer uma ligação com os imigrantes de hoje. Com ela, qualquer jovem imigrante ou filho de imigrantes das periferias dos grandes centros urbanos europeus consegue identificar-se rapidamente com os dois homens do século XIX correndo de cartola e relógio de bolso que vê na tela ou ecrã.

Com efeito, este aspecto é expandido. Uma das preocupações de Peck, facilmente perceptíveis durante O Jovem Karl Marx, não é apenas a de mostrar Marx na sua condição de exilado político e migrante, mas, acima de tudo, a de o mostrar na sua condição de judeu na Europa oitocentista. A sombra do racismo paira sobre o personagem, e apesar de nunca tomar o centro da acção — algo que seria forçado — , faz sentir a sua presença. O mais duro insulto, neste filme repleto de insultos, é colocado na boca de um capitalista que, vendo-se humilhado por Marx e Engels numa discussão sobre trabalho infantil nas suas fábricas, despede-se dizendo, em tom triunfante, “Isso parece-me hebraico”. O jovem Karl recebe estas palavras como um soco no estômago.

Actualmente a academia, tendo sido incapaz de enterrar Marx, procura apoderar-se da sua imagem e, coberta de legitimidade burguesa, retratá-lo como um “branco privilegiado”, afastando-o das nacionalidades e grupos oprimidos. Nas palavras de Lenin, estão a “convertê-lo em ídolo inofensivo”. Mas Peck relembra-nos que Karl Marx viveu toda a sua vida como vítima de racismo, e isto deve ser sublinhado na época presente, quando se erguem novamente movimentos de massas com grande potencial revolucionário como, nos EUA, o Black Lives Matter. Aqui reside o segundo grande mérito do filme.

A qualidade técnica dos actores e actrizes é, claro, indispensável para tudo isto funcionar como entretenimento. A profundidade da relação de Marx e Engels, inicialmente pouco amistosa e transformada pela mútua admiração intelectual, é comunicada pelos actores em cenas necessariamente curtas e consecutivas, através de uma dinâmica admirável de representação. August Diehl e Stefan Konarske, nos papéis de Marx e Engels respectivamente, só são igualados por Vicky Krieps, como Jenny von Westphalen, e Hannah Steele, representando Mary Burns, a operária e agitadora socialista que apaixonou Engels. Ambos os casais têm o carácter das suas relações exposto em algumas curtas cenas de maneira exímia. Tabém Olivier Gourmet, representando o pedante Pierre-Joseph Proudhon, consegue irradiar a presunção que o papel exige, e Alexander Scheer dá vida a Wilhelm Weitling em toda a sua estéril espectacularidade.

https://www.youtube.com/watch?v=WBrj8lpeeOY

Com O Jovem Karl Marx, Raoul Peck ofereceu às organizações de trabalhadores uma das melhores peças cinematográficas de agitação e até de propaganda comunista forjadas no último par de décadas. Realizar um filme sobre ideias capaz de funcionar como entretenimento para uma vasta audiência é como equilibrar uma agulha sobre a sua ponta, mas Peck conseguiu-o. E mais do que um filme sobre ideias, fez um filme com ideias, pleno de significado para os nossos dias. Confirma-se, se dúvidas restassem, que a obra deste realizador, e não apenas O Jovem Karl Marx, merece a atenção de todos os que lutam por um mundo livre de exploração e opressão. É uma “arma que implora por ser utilizada!”.

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