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Guterres, negacionista do apartheid | António Louçã

Afinal, António Guterres, face visível de campanhas humanitárias, não era um erro de casting para chefiar uma organização que ao longo da História tem sobretudo aplaudido invasões, guerras e massacres. O imperialismo sabia bem a quem dava luz verde para ocupar o cargo de secretário-geral da ONU.

A resolução que a diplomacia de Obama deixou passar contra os colonatos permaneceu, como era de prever, letra morta e mais morta continuará sob a Administração Trump. Para levar muito mais a sério, é o veto de Guterres a qualquer denúncia do apartheid sionista. A diplomata jordana Rima Khalaf, que assinava um relatório sobre essa realidade indesmentível, teve de renunciar ao seu alto cargo na ONU sob a pressão de Guterres.

Agora, o secretário-geral em estado de graça foi à assembleia-geral do Congresso Mundial Judaico prometer que estará sempre “na primeira linha contra o antissemitismo”. Podia ter prometido que estaria na primeira linha da luta contra todo o tipo de racismo, mas quis deixar claro que era só do racismo antissemita que falava.

Ora, se Guterres queria falar sobre o racismo judeofóbico, devia começar por falar da Administração Trump e da fauna que esta recrutou para a Casa Branca. Mas não: para Guterres ser antissemita não é tanto maltratar os judeus da Diáspora e sim, sobretudo, denunciar o Estado de Israel como Estado-pária por ter instaurado um regime de apartheid. Guterres explicou o que entende por combate ao antissemitismo: trata-se, nem mais, nem menos, de impor que Israel seja “tratado como qualquer outro Estado” das Nações Unidas.

E, se quisesse mesmo falar sobre antissemitismo, devia falar sobre Israel, precisamente o Estado que pratica o apartheid contra um povo semita — o povo palestiniano — e que fez desse povo um estrangeiro na sua própria terra, em terras vizinhas e em terras distantes. Mas, tal como os negacionistas do Holocausto, também Guterres, negacionista do apartheid israelita, sabe desconversar sobre o que lhe convém e calar o que não lhe convém.

É verdade que Guterres falou de atrocidades cometidas contra judeus da Diáspora, e até lhe fica bem ter falado das que foram cometidas pelo fanatismo católico em Portugal. O que não lhe fica nada bem é usar essas atrocidades de há cinco séculos como cortina de fumo para proteger o actualíssimo antissemitismo trumpiano, ou como cortina de fumo para branquear genocídios cometidos pelo colonialismo português, ao longo dos séculos e durante a guerra colonial.

Mas fê-lo, sem dúvida, ao classificar a expulsão dos judeus como “o pior erro cometido em Portugal”. Hoje, seria um erro crasso para a esquerda continuar a incensar este santo de pau carunchoso como motivo de orgulho nacional.

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